domingo, 8 de maio de 2011

Luz e escuridão

Passeio pela rua clara, de fachadas brancas que refulgem ao sol do meio-dia. Não há recantos, não há sombras. Não há curvas nem ângulos. Apenas o branco e o céu. Em torno de mim viandantes de várias partes do mundo deambulam ostentando expressões alegres de quem caminha alheio às misérias do mundo. É assim que deve ser na zona turística de uma capital, numa amena manhã de Maio. Há, claro, quem esteja a trabalhar e tente tirar partido da onda benemérita de turistas de bolsas com cordões lassos. Mas apesar de para esses ser apenas mais um dia de trabalho, também eles têm estampadas nos rostos expressões de contentamento e alegria, como se a ausência de nuvens no azul acima das suas cabeças tivesse a mesma metafórica existência dentro das suas almas. Apenas sol, dentro e fora de si. Apenas pureza branca ao seu redor e no âmago de si.



De súbito, de qualquer recanto que desconheço porque inexistente por aquelas partes, surges tu, negro e sombrio. Detecto-te pelo canto do olho, sobressaltada, sem perceber de onde saíste. Por uma fracção de segundo, receio que tão inusitada aparição possa ser de algum modo ameaçadora. Um assalto talvez. Mas sem perceber bem porquê, o primeiro relance sobre o teu rosto revela a impossibilidade deste receio. Ninguém com uns olhos tão cristalinos poderia ter sequer um fiapo de intenções malévolas. Mas uma sobrancelha arqueada empresta-te um toque de malícia ou rebeldia, que de imediato me conquista, como se me desafiasse: “Não me vais seguir, pois não?”. O teu olhar carregado de segundas intenções serpenteia em redor do meu corpo, mas não dizes uma só palavra. Viras costas. E eu sigo-te.



Calcorreias a calçada como se ela fosse apenas um prolongamento de ti. Mais do que pertencer-te, o espaço que ocupas em cada passo parece ser absorvido pelo teu corpo e de repente tu és tudo em redor de nós. Dominas o espaço. E o tempo é apenas uma insignificância ao sabor dos teus caprichos.



Subimos e descemos as ruas estreitas da parte velha da cidade. Ruas minúsculas onde o sol não consegue lançar nem uma cintilância dourada. Como se de repente a noite tivesse caído sobre nós. Como se alvas ruas de antes não tivessem sido mais do que o afago de um sonho.



Páras sem te virar quando, depois de uma subida íngreme que me faz ofegar, chegamos ao pináculo da cidade, o castelo. Páro também, sem quebrar a fronteira invisível que me obriga a permanecer a uma dúzia de metros de ti.



Aproximas-te do muro que te separa do abismo e eu, num magnetismo involuntário que não compreendo nem controlo, avanço exactamente o mesmo número de passos que tu. E mais uma vez ali fico, contemplando a tua silhueta enquanto, imóvel, vislumbras um infinito que transcende a orbe do meu entendimento.



Viras-te para mim, lentamente. Olhas-me directamente nos olhos, como se me quisesses hipnotizar. Como se eu não estivesse já hipnotizada desde o primeiro momento em que olhei para ti. Numa luta contra a imobilidade que me estacou a uns metros de ti, consigo que as minhas pernas se movam. Um passo, depois outro. Passos lentos e árduos. Alcanço-te. Virada para o rio que refulge, o meu braço quase toca no teu. E neste vácuo entre nós, no silêncio, quase consigo ouvir o crepitar da energia que nos atrai. Que me aproxima de ti.



Continuas de costas voltadas para o rio. Apenas te alcanço com a periferia da visão. Sei-te bem perto. E no entanto sinto-te bem longe, como se existisses simultaneamente em duas dimensões diferentes, em dois mundos paralelos e eu apenas pudesse alcançar com limitações uma fracção desta existência desmultiplicada.



Assobias. Sons agudos deslizam dos teus lábios subitamente contraídos. Silvos melodiosos enchem o espaço entre nós e penetram em mim, fazendo-me vibrar. Imagens sibilantes começam a tomar forma na minha consciência. Estrelas, planetas e galáxias rodopiam à minha volta a uma velocidade estonteante. Até que a cena vai desacelerando, gradualmente, até parar perto de um pequeno satélite azul que orbita um colossal planeta. Num instante vejo-me rodeada de água por todos os lados. Estou no meio do mar e respiro como se a água fosse o meu elemento. Abaixo de mim uma miríade de pontos luminosos revela uma cidade subaquática no meio da imensidão negra. Compassadamente mexo braços e pernas e rapidamente a alcanço. E sem perceber como, dou por mim ao teu lado novamente. Mas desta vez és diferente. O teu corpo está envolvido por uma película prateada, cobrindo a pele morena que te conheci ainda há pouco. Os teus cabelos longos ondeiam como se voassem. Lanças-me um sorriso cândido e envolves-me num longo abraço, acetinado na nova pele que agora te descubro. Aproximas os lábios do meu ouvido e sussurras. “Fica.



E, antes de poder responder, numa fracção de segundos retorno ao ponto de partida. Estou de volta à muralha do castelo, e o rio está de novo ao pé de mim. O silêncio denuncia a tua ausência. Não existe mais o teu assobio. Não és mais ali.
Mas eu queria ficar…

3 comentários:

  1. Moon:
    Pode ser longa e dura a tua ausência, mas depois a tua subtil chegada de sabor doce e jeito envolvente, onde as palavras transportam emoções profundas, volta a encher de luz e cor, o espaço vazio e silencioso das noites escuras. Só este texto despertou em mim uma mão cheia de ideias. É no mínimo, inspirador. «Me aguarde» ;)

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  2. Cláudio: Parece que fiz as pontinhas dos teus dedos formigar! :) Fico a aguardar mesmo. Ansiosamente

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  3. Olá Cláudio :)
    que bom que conseguir pôr-te com os dedos a formigar! :)
    Aguardo pois, e ansiosamente!!!
    Bom fim de semana!

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