domingo, 19 de junho de 2011

Last job

Sinto-me bíblico esta noite. O Alfa e o Ómega. O princípio e o fim. Ou será melhor dizer o princípio do fim?

Tudo começou numa noite fresca de primavera. Ali, à luz de uma lua que iluminava pensamentos, sob a incandescência dos candeeiros da autoestrada, os meus magníficos mecanismos deram um suspiro de supremo cansaço. Parei. A minha proprietária (a que de agora em diante chamarei dona apenas para encurtar a fraseologia), meio atarantada e com movimentos desordenados e chamadas telefónicas constantes, lá chamou o reboque para me tirarem dali.

E foi enquanto me içavam para cima do reboque, que as palavras da minha dona, proferidas ao som de um jazz melancólico de Diana Krall, selaram o seu - e o meu - destino: "Já chega, vou-me livrar de ti! Mas como vou arranjar dinheiro? Só se assaltar um banco...". Pensava eu que apenas haviam metáforas nestas palavras!...

Depois de uma desconfortável estadia numa oficina húmida e escura, e de um arranjo astronómico, regressei à minha rotina de viagens e estacionamentos, como se nada se tivesse passado. Mas algo diferente pairava no ar. A minha dona cada vez menos preocupada com as lombas e buracos na estrada, por cima dos quais passava como se conduzisse um carro que não lhe pertencesse. A sua condução mais agressiva. O seu ar ausente e alheado enquanto conduzia. Agora vejo tudo isto como indicadores que faziam prever o que se seguia. Mas como poderia eu imaginar?

Nunca antes acontecera, mas tornaram-se habituais passeios nocturnos pelos subúrbios da cidade onde vivia. Percorríamos, por vezes durante horas, ruas escuras e desertas a velocidade irregular. Tanto acelerávamos como passávamos bem devagar, ao sabor dos apetites da minha dona. Eu não percebia o que se passava, mas olhando agora para trás, tudo aparece com clareza: as ruas que percorríamos lentamente tinham sempre algo em comum - agências bancárias. Sim! Percorrendo as ruas bem devagar, olhando para um lado e para o outro, a minha dona estudava os arredores, a segurança, os prédios vizinhos, as ruas e os percursos circundantes. Vejo-o agora, porque na altura nada percebi. Confesso que aquela mudança de hábitos e tão estranhas rotinas apenas me fizeram na altura suspeitar que a minha dona tinha perdido o juízo. Mas nada me fazia prever o que se seguiria.

Estes passeios, primeiro noctívagos e depois diurnos também, prolongaram-se por semanas. Ao longo do tempo, a variedade de ruas percorridas foi reduzindo. Até que numa semana a rua percorrida era sempre a mesma. Uma rua residencial larga, numa urbanização de prédios novos em que a maioria dos apartamentos exibia cartazes gigantes "Para Venda". O único estabelecimento aberto, adivinhem...: Um banco. O enorme letreiro cor de rosa iluminava a rua de noite. Durante o dia era a única coisa que se destacava por entre os prédios de fachadas todas iguais. De dia ou de noite, poucas pessoas passavam por ali, e menos ainda eram aquelas que entravam no banco ou que utilizavam a Caixa Automática que ficava ao lado da porta do banco. O posto de polícia mais próximo ficava a 20 km dali, pecebi eu depois de tantas viagens nas últimas semanas. E a menos de 5 km dali havia uma entrada para a autoestrada. Durante dois ou três dias a minha dona estacionou-me a quatro ou cinco quarteirões de distância do banco e percorreu cada centímetro daquelas ruas a pé, com um bloco na mão, fazendo anotações. Nesta altura eu percebi que algo estava para acontecer. Tornava-se demasiado óbvio.

Até que esta noite, era uma da manhã, a minha dona sentou-se ao volante e começámos a percorrer o já familiar trajecto. Mas tudo estava diferente. As suas roupas geralmente coloridas deram lugar a uma roupa preta bem justa. Um capuz negro cobria-lhe a cabeça e a face. As mãos estavam trémulas e transpiradas. Ao seu lado, um grande saco de desporto repousava no banco e uma bolsa mais pequena estava pendurada na cabeceira do banco, esta bem pesada e de onde era possível entrever alguns objectos metálicos que não consegui identificar.

Parámos cerca de um quilómetro antes de chegar perto da agência, mas desta vez a minha dona deixou-me a trabalhar. Com a bolsa pequena a tira-colo e o saco grande na mão, saiu a correr deixando aberta a porta do lugar do condutor. De onde estava, não consegui ver o que se passava. Mas não demoraram 10 minutos até que alarmes estridentes soassem pelo ar e que, instantes depois, a minha dona voltasse a entrar esbaforida pelo carro e acelerasse como nunca antes em direcção à autoestrada.

Tínhamos já percorrido mais de 30 Km, quando as luzes azuis ameaçadoras começaram a reflectir-se no retrovisor. Sirenes estridentes cortavam o silêncio da noite. E a minha dona, num estado de agitação incontrolável, acelerava cada vez mais...

Com uma guinada brusca, dirigimo-nos para a saída da autoestrada. Talvez a minha dona pensasse que seria mais fácil despistar a polícia dentro de uma localidade. Mas, ingénua, não contava com todas as cancelas das portagens fechadas, certamente por obra da polícia que nos seguia. Nem sequer hesitou. Com o acelerador a fundo, passou por uma delas a toda a velocidade, quebrando-a e, com isso, estilhaçando o meu vidro da frente e amolgando a chapa da frente. Não parei, contudo. Continuei a andar a alta velocidade, mais rapidamente que nunca. E foi esta velocidade que fez com que acabasse aqui onde estou agora.

Mais à frente da portagem, havia uma curva bem apertada. Não sei se a minha dona não contou com ela (já tínhamos passado por ali antes...), ou se não conseguiu travar a tempo. Apenas sei que quando dei por mim estava a galgar o separador metálico e a voar em direcção do nada, rodopiando sobre mim mesmo, com barulhos de lata a amachucar-se, vidros a partir-se e gritos da minha dona apavorada. Até que parámos, e o silêncio por intantes se impôs.

Os carros da polícia pararam tão perto, que as suas luzes azuis me encandeavam. A minha dona, em trôpegos solavancos, conseguiu sair do carro, e cambaleando tentou correr levando o grande saco consigo. Mas não demorou nem um minuto até que uma meia dúzia de polícias a derrubassem, algemassem e lhe tirassem o saco de onde, depois de aberto, uma quantidade enorme de notas esvoaçaram.

Eu? Bem, eu sei que não vou voltar a percorrer estradas. Aqui, iluminado por flashes azuis, aguardo a última viagem de reboque que me conduzirá à sucata. Mas não sem uma sensação de ter sido um instrumento do destino. Os astros alinharam-se, selaram o destino da minha dona e fui eu quem a trouxe até aqui. Ela pensava que eu era seu, mas afinal foi o contrário.

Minha dona? AH! Ninguém manda em mim!!!!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Invisível


Hoje o Destino resolveu meter o seu narizinho abelhudo na minha vida. Chamo-lhe Destino, como lhe podia ter chamado, Deus, Diabo, Fado, Azar, Alá,... sei lá!... As designações são tantas e as evidências nenhumas... Escolhi esta. Apeteceu-me.

Quando eu estava a um passo minúsculo de finalmente chegar ao céu, quando já quase conseguia voar, veio o Destino e prega-me uma daquelas piadas de mau gosto, que prega apenas porque a sua própria vidinha é um marasmo e precisa de se entreter.


E pronto, estava já eu prestes a voar quando um bater de asas mais hesitante e menos afortunado me levou direitinha ao chão. Mesmo depois de cair, continuei a dar às asas, mas a dor foi difícil de ignorar (é impressão minha ou esta metáfora está a tornar-se um bocado idiota?).


Vou ao hospital, tenho que recuperar rapidamente. Afinal de contas o céu não vai esperar para sempre que eu lá chegue!!! E aí, fico boquiaberta com o que descubro: tornei-me invisível.


Dado o conteúdo deste blog, isto nada teria de extraordinário. Mas a verdade é que, pela primeira vez, estou mesmo a falar na primeira pessoa, em discurso directo, desta dimensão que todos partilhamos e com os pés bem assentes no chão. Não foi um fenómeno paranormal. Não foi um milagre. Não foi um sonho nem um delírio. Passo a explicar.


Entro no gabinete médico que me aguardava de porta escancarada. Lá dentro, de costas para a porta uma mulher de bata branca, com um daqueles cabelos bem esticados com uma oleosidade que denuncia a necessidade urgente de um regresso ao cabeleireiro, falava ao telefone em voz alta. Bato à porta levemente. Não sou notada. Pigarreio. Nada. Peço licença para entrar num tom de voz que penso que já denunciava alguma impaciência. Nada outra vez, pensei eu. Mas com a rapidez de reacção de um caracol em dia de Verão, a senhora - a médica, claro está! - vira-se para mim e faz-me sinal para que entre, sem nunca interromper a conversa que está a ter.


Entro devagar (o meu estado não me permite outra coisa) e sento-me. Olho a médica que nem sequer me dirige um olhar. Fala num tom de voz enérgico com quem quer que seja, sobre uma terceira pessoa que desconheço. Alterna o olhar entre a janela e a sua mala, na qual remexe de vez em quando, distraída. E fala, fala, fala. Como seu eu nem estivesse ali. Como se eu nem existisse.


Foi aqui que comecei a achar que o meu principal mal não está na locomoção reduzida induzida pela queda, mas sim um etsranho caso de invisibilidade. Será que a mulher simplesmente não me vê???


O telefonema termina finalmente e, acto contínuo, a médica desvia o olhar para o monitor de computador que divide o espaço entre nós, sem nunca me fitar. Mexe no rato com movimentos que denunciam alguma inépcia, enquanto - finalmente! -me pergunta o porquê de eu estar ali.


Sou breve, a minha história não é complexa nem longa. E durante o meu sintético relato, apenas recebo um breve olhar de relance da médica, que anda às voltas meio perdida no mundo da informática. De repente, miséria das misérias "AH!!! Mas isto já deixou de funcionar outra vez!!!", geme a mulher numa verdadeira aflição. "Não sei o que fizeram a estas coisas, mas isto já nunca funciona!". E pronto, mais uma desculpa para que a médica passasse mais dez minutos a degladiar-se com o desafortunado pedaço de tecnologia, desapercebendo-se novamente da minha presença.


Ouve-se conversa no corredor. "OH colega! Pode ajudar-me aqui com o computador? Veja lá se me consegue pôr isto a funcionar". A donzela em apuros clama pelo cavaleiro para a salvar. Mas quem entra pelo gabinete dentro não é o garboso cavaleiro dos contos de fadas, mas um médico já de idade avançada, muito magro e com maneirismos que em cada instante denunciam uma homossexualidade não confessada mas conhecida por todos.


"Deixe lá ver isso!", diz o homem debruçando-se sobre a secretária e pegando no rato. "Vai ver que isto resolve.". "Oh!" - responde a médica, agora genuinamente aflita - "mas está a desligar-se!". "Calma, senhora, tenha calma!". E assim começa um diálogo que se estendeu por minutos que a mim me pareceram longos. Os dois médicos falavam entre si, ou falavam com o computador, ou chegavam mesmo a falar sozinhos. Comigo é que nada. Eu simplesmente não estava ali.


Talvez por defeito de profissão, acabei por me recostar na cadeira, e simplesmente deleitar-me a apreciar a cena. Havia, claro, aquele desassossego na minha mente que me questionava "Serei invisível?", "Será que não me vão ligar nenhuma?". Mas acabei por calar estas vozes e apenas apreciar a cena que era no mínimo caricata!


Num momento de tomada de consciência, lá o médico - ainda sem olhar para mim - diz qualquer coisa do género "Aqui a senhora está a olhar para nós, deve achar que não lhe ligamos nenhuma!". Mordo a língua para não proferir nenhum dos comentários azedos que me passaram pelo espírito em resposta a este comentário. Sobretudo agora que parecia que finalmente ia ser vista por uma daquelas criaturas!


Não me enganei. Poucos minutos depois saí do hospital com uma receita e um curativo. Mas saí também com uma outra certeza: uma pessoa pode ser invisível, mesmo que não seja em histórias e contos de fantasia.



domingo, 8 de maio de 2011

Luz e escuridão

Passeio pela rua clara, de fachadas brancas que refulgem ao sol do meio-dia. Não há recantos, não há sombras. Não há curvas nem ângulos. Apenas o branco e o céu. Em torno de mim viandantes de várias partes do mundo deambulam ostentando expressões alegres de quem caminha alheio às misérias do mundo. É assim que deve ser na zona turística de uma capital, numa amena manhã de Maio. Há, claro, quem esteja a trabalhar e tente tirar partido da onda benemérita de turistas de bolsas com cordões lassos. Mas apesar de para esses ser apenas mais um dia de trabalho, também eles têm estampadas nos rostos expressões de contentamento e alegria, como se a ausência de nuvens no azul acima das suas cabeças tivesse a mesma metafórica existência dentro das suas almas. Apenas sol, dentro e fora de si. Apenas pureza branca ao seu redor e no âmago de si.



De súbito, de qualquer recanto que desconheço porque inexistente por aquelas partes, surges tu, negro e sombrio. Detecto-te pelo canto do olho, sobressaltada, sem perceber de onde saíste. Por uma fracção de segundo, receio que tão inusitada aparição possa ser de algum modo ameaçadora. Um assalto talvez. Mas sem perceber bem porquê, o primeiro relance sobre o teu rosto revela a impossibilidade deste receio. Ninguém com uns olhos tão cristalinos poderia ter sequer um fiapo de intenções malévolas. Mas uma sobrancelha arqueada empresta-te um toque de malícia ou rebeldia, que de imediato me conquista, como se me desafiasse: “Não me vais seguir, pois não?”. O teu olhar carregado de segundas intenções serpenteia em redor do meu corpo, mas não dizes uma só palavra. Viras costas. E eu sigo-te.



Calcorreias a calçada como se ela fosse apenas um prolongamento de ti. Mais do que pertencer-te, o espaço que ocupas em cada passo parece ser absorvido pelo teu corpo e de repente tu és tudo em redor de nós. Dominas o espaço. E o tempo é apenas uma insignificância ao sabor dos teus caprichos.



Subimos e descemos as ruas estreitas da parte velha da cidade. Ruas minúsculas onde o sol não consegue lançar nem uma cintilância dourada. Como se de repente a noite tivesse caído sobre nós. Como se alvas ruas de antes não tivessem sido mais do que o afago de um sonho.



Páras sem te virar quando, depois de uma subida íngreme que me faz ofegar, chegamos ao pináculo da cidade, o castelo. Páro também, sem quebrar a fronteira invisível que me obriga a permanecer a uma dúzia de metros de ti.



Aproximas-te do muro que te separa do abismo e eu, num magnetismo involuntário que não compreendo nem controlo, avanço exactamente o mesmo número de passos que tu. E mais uma vez ali fico, contemplando a tua silhueta enquanto, imóvel, vislumbras um infinito que transcende a orbe do meu entendimento.



Viras-te para mim, lentamente. Olhas-me directamente nos olhos, como se me quisesses hipnotizar. Como se eu não estivesse já hipnotizada desde o primeiro momento em que olhei para ti. Numa luta contra a imobilidade que me estacou a uns metros de ti, consigo que as minhas pernas se movam. Um passo, depois outro. Passos lentos e árduos. Alcanço-te. Virada para o rio que refulge, o meu braço quase toca no teu. E neste vácuo entre nós, no silêncio, quase consigo ouvir o crepitar da energia que nos atrai. Que me aproxima de ti.



Continuas de costas voltadas para o rio. Apenas te alcanço com a periferia da visão. Sei-te bem perto. E no entanto sinto-te bem longe, como se existisses simultaneamente em duas dimensões diferentes, em dois mundos paralelos e eu apenas pudesse alcançar com limitações uma fracção desta existência desmultiplicada.



Assobias. Sons agudos deslizam dos teus lábios subitamente contraídos. Silvos melodiosos enchem o espaço entre nós e penetram em mim, fazendo-me vibrar. Imagens sibilantes começam a tomar forma na minha consciência. Estrelas, planetas e galáxias rodopiam à minha volta a uma velocidade estonteante. Até que a cena vai desacelerando, gradualmente, até parar perto de um pequeno satélite azul que orbita um colossal planeta. Num instante vejo-me rodeada de água por todos os lados. Estou no meio do mar e respiro como se a água fosse o meu elemento. Abaixo de mim uma miríade de pontos luminosos revela uma cidade subaquática no meio da imensidão negra. Compassadamente mexo braços e pernas e rapidamente a alcanço. E sem perceber como, dou por mim ao teu lado novamente. Mas desta vez és diferente. O teu corpo está envolvido por uma película prateada, cobrindo a pele morena que te conheci ainda há pouco. Os teus cabelos longos ondeiam como se voassem. Lanças-me um sorriso cândido e envolves-me num longo abraço, acetinado na nova pele que agora te descubro. Aproximas os lábios do meu ouvido e sussurras. “Fica.



E, antes de poder responder, numa fracção de segundos retorno ao ponto de partida. Estou de volta à muralha do castelo, e o rio está de novo ao pé de mim. O silêncio denuncia a tua ausência. Não existe mais o teu assobio. Não és mais ali.
Mas eu queria ficar…

domingo, 3 de abril de 2011

Menina da lua

Abro os olhos sem saber que horas são. Aliás, este é o meu estado natural. Neste quarto sempre igual, os dias e noites não são mais que remotas miragens que se confundem entre si. O tempo deixou de correr para mim. Alterno entre o sono e a vigília seja de noite ou de dia, como se o meu corpo tivesse abandonado o ritmo do sol e da lua e ganho um ritmo próprio. Afinal, ao fim de nove décadas, já ganhou direito a que nada nem ninguém mande nele…

À minha volta os primeiros sons matutinos começam a ouvir-se. Mulheres velhas que gritam e se debatem porque as levantam das suas camas para mais um banho. Pois, ainda é de madrugada! É a esta hora que começam os banhos. E as auxiliares que tentam realizar este trabalho falam em voz alta, para se fazerem ouvir, alternando entre um tom infantilizador e palavrões rudes quando a frustração vem ao de cima. Uma a uma, vai chegando a vez de cada uma das minhas companheiras. E a minha vez chega também.

Tomei banho ontem, dizem-me, por isso basta-me fazer a higiene matinal. A minha memória já não me devolve imagens de tal, mas sigo as instruções. Em frente ao lavatório, enquanto passo as mãos molhadas pelo rosto e pelo cabelo, olho o espelho e mal reconheço o rosto enrugado e o cabelo totalmente branco que o espelho mostra. Bem, a verdade é que os meus olhos vêem já tão pouco, que dificilmente reconheceria fosse quem fosse. As minhas pernas começam a debater-se com a verticalidade. Tremem como se carregassem um incomensurável peso. Tenho medo de cair e devagar, deixo-me tombar sobre a cadeira de rodas que me levou até ali, para que me levem de volta à cama. Vai começar mais um dia eterno neste lar que de casa nada tem.

Quando finalmente os cuidados terminam e consigo ficar numa posição confortável entre mantas e almofadas, apodera-se de mim a tristeza imensa que há anos me acompanha. Para quê viver assim? Qual o objectivo de ver passar os dias que jamais serão diferentes? Esperar pela morte. É o meu entretém diário. A minha esperança. Porque a anseio mais do que receio. O dia em que finalmente me liberte deste corpo que me trai a cada minuto, deste coração que ameaça parar, destes pulmões que já não me dão o ar que preciso, destas pernas que já não andam, deste olhos que já não vêem… Quero descansar, finalmente.

Dizem que do outro lado encontrarei aqueles que ao longo de tantos anos fui perdendo. Os meus irmãos. O meu pai. O meu adorado marido (há tantos anos que partiu…). A minha mãe, que de há uns tempos para cá ocupa cada vez mais espaço na minha memória. Todos eles esperam por mim. E eu quero revê-los. Tanto…

Há, no entanto, algo que ainda me prende aqui. Que me faz suportar esta vida torturada de ser que de todos depende. A minha família. Antes de partir, quero saber que todos vão ficar bem. Que todos terão a vida organizada e pronta, como merecem. Aí sim posso ceder. Posso perder a batalha e ganhar a guerra. Morrer finalmente. Mas até lá, luto todos os dias por mais um dia de espera até que a vida de todos se componha.

Pela janela o sol já entra, mas o sono regressa. Chega em novelos de consolo. A turvescência dos meus olhos começa a escurecer e os meus cansados músculos a abandonar a rigidez.

E sou novamente uma garota livre que acorda na sua cama, rodeada dos seus irmãos que dormem sossegados à sua volta. Sou a menina de longos cabelos loiros que era há oitenta anos atrás.

Levanto-me ligeira e, pé ante pé para não acordar ninguém, vou até à janela e abro-a. Uma aragem fria faz os meus cabelos esvoaçar. Mas sabe tão bem! Do lado de lá da janela, a lua olha para mim e ilumina-me, como se me convidasse a sair. Como se me dissesse “A minha luz guiar-te-á. Sai para o mundo e descobre-o nas cores da noite!

Muitas vezes a lua me fez este apelo insensato. E eu, sensatamente, de todas as vezes recusei. Mas não quero mais ser sensata, porque hoje sou a menina de dez anos a sonhar com uma mente de noventa. A janela é baixa. Sento-me no parapeito, rodo as pernas para fora e um pequeno salto põe os meus pés em contacto com a terra áspera.

Hoje vou ver o que a noite me mostra e o sol me esconde. Hoje sou uma menina à solta no reino da lua.


Não quero mais acordar…


História fictícia escrita por mim para a Fábrica de Histórias

quarta-feira, 9 de março de 2011

Não Ser

Atirei o meu corpo exausto para cima da relva e ali fiquei. Não sei por quanto tempo.
Subi ao cimo de mim e vi-me adormecida num sono profundo, com um leve sorriso assomando aos lábios. O desconhecido era completo. Mas não havia medo. Não havia emoções.
Dei por mim transformada num ser completamente diferente. O Universo mudara. Eu mudara. As regras eram outras. As leis da Física tinham sido deixadas para trás. Inimaginável. Inconcebível. Mas real.
Fechara os olhos e pairava agora no vazio. Por entre a matéria, imaterialmente. Sem chão nem tecto. Sem barreiras nem obstáculos. Vagava pelo espaço vazio. Apenas pairava.
Estava consciente mas não sentia. Olhava o passado, sem arrependimento nem nostalgia. Via o futuro sem nada ansiar. Via, pensava, mas não sentia. Nem tristeza nem alegria. Nem raiva, nem amor. Apenas era.
Estava e não estava. Em qualquer lugar. Em todos os lugares e em lugar nenhum. Em todos os tempos e em tempo nenhum. Apenas estava.
O mundo não era mais do que apenas uma paragem possível, entre muitas, entre um Universo inteiro, facilmente acessível e à distância de um pensamento. Da minha vontade.
As pessoas em meu redor passavam por mim, tocavam-me, mas sempre alheias à minha presença. À minha existência. Imaterial e Invisível.
Seria assim depois da morte? Estaria eu morta? - Confirmei. Não, a respiração lenta e regular denunciavam um simples sonho. Seria esta a essência dos Anjos?
Acordei, sobressaltada.
Demasiadamente real para ser um sonho.
Mas nenhuma outra coisa poderia ter sido.
Tantas perguntas por responder...

terça-feira, 8 de março de 2011

A menina que queria ser verde

Maria vivia numa aldeia junto a um bosque. Desde pequena que percorria a floresta e que a conhecia como a palma das suas mãos. Em criança a sua brincadeira favorita era jogar às escondidas na floresta. Bem escondida, embrenhada na vegetação, passava momentos de puro deleite a contemplar as aves, as flores, as árvores. Era o verde da vegetação o que mais admirava. Em diferentes tonalidades, com matizes de luz e de sombra, aquele verde prendia-lhe a atenção. Captava o seu olhar, que por ali permanecia por horas e horas.
Um dia, num devaneio de criança, decidiu que queria ser verde como aquelas árvores magníficas. Queria que a sua pele e os seus cabelos se tingissem daquelas tonalidades admiráveis. Não apenas pelo tanto que gostava delas, mas também porque assim conseguiria ludibriar as restantes crianças, que desse modo jamais a conseguiriam encontrar nos seus jogos de esconde-esconde.
Poderia ter sido apenas uma ideia passageira na mente volátil de uma criança, mas a verdade é que, a partir daquele dia, Maria envidou todos os esforços para que, ganhando o seu corpo tonalidades de verde, pudesse transformar-se num ser daquele bosque frondoso. O devaneio transformou-se em sonho. E o sonho tornou-se objectivo.
Por muito tempo, para além do tempo em que as crianças deixam de o ser e os jogos de esconde-esconde deixam de fazer sentido, Maria fez tudo o que sabia ou imaginava para alcançar o seu objectivo. Já adulta, quando já não brincava e a sua principal ocupação era ser a contadora de histórias da aldeia, aquela ideia não saíra da sua cabeça. Era na floresta que obtinha a inspiração para escrever as suas histórias. E, no fundo da sua mente, achava que ao tornar-se um ser da floresta, uma menina verde, poderia fundir-se com ela. E ao fundir-se, usufruir permanentemente da inspiração que, sem excepção, dali obtinha. E assim alimentava a sua busca, quando parecia que já perdera o sentido.
Mas todos os seus esforços redundaram em fracasso. O único resultado? Admoestações constantes da família e olhares de soslaio dos restantes aldeãos, que assim a viam como a rapariga louca que contava histórias às suas crianças.
Um dia, numa das suas demandas por inspiração pela floresta, Maria encontrou uma bruxa. Sabia quem era, pois era lenda famosa na aldeia. E era temida por quantos nela viviam. Ainda assim, Maria não hesitou e fez o seu pedido. «Quero ser verde». Ao que a bruxa respondeu «Sê-lo-ás, se pegares nesta arca que o meu jumento carrega e, sozinha, a colocares no topo da montanha mais alta.».
Maria nem queria acreditar no que ouvia. Era apenas aquilo que a separava da concretização do seu sonho? Parecia bom de mais para ser verdade. E de facto, veio a descobrir que assim era, logo que tentou carregar a arca. O peso era imenso. Nem para um homem com o dobro da sua força seria possível carregar aquela enorme arca cujo conteúdo desconhecia. Mas não desistiu. Com a tenacidade que revelara ao longo de todos aqueles anos, Maria arregaçou as mangas e pôs as mãos à obra.
Milímetro a milímetro, arrastou a enorme arca, parecendo que a cada minúsculo avanço se lhe esvaíam as forças. Sob calor abrasador ou debaixo de chuvas torrenciais continuava esta hercúlea tarefa, apenas com pequenas pausas para dormir ou alimentar-se. Adormecia e acordava a pensar em maneiras para conseguir transportar a sua enorme carga. E muitas vezes até em sonhos estes pensamentos não a abandonavam. Muitas vezes pensava em desistir. Para quê aquilo tudo? Para quê, se na verdade sempre tinha sido capaz de escrever e contar as suas histórias e o modo como o fazia sempre fora suficientemente bom para ganhar sustento e a admiração de quem a ouvia? Mas aquela vozinha de criança jamais a abandonava e impelia-a a prosseguir.
Uma noite, em que adormecera de pura exaustão se mesmo ter comido o jantar que a mãe lhe levara, Maria teve o mais estranho dos sonhos. Um ser iluminado por uma majestosa luz doirada apareceu, iluminando todo o céu da noite até que as estrelas se tornaram pálidas. Este ser, este Anjo, como lhe chamou, pairava no ar e falou-lhe com a mais doce das vozes. Uma voz de onde ressoava amor puro e pura magia.
«Maria» disse «para quê tanto sofrimento para no final nada teres? Sabes tão bem quanto eu que este não é o teu lugar. Queres ser verde, mas sabes que não precisas de o ser. Tudo o que precisas de ser está dentro de ti. As tuas histórias já são lindas e inspiradas. Mudares a cor da pele ou o que quer que seja em ti não melhorará nada. Porque já não há nada para melhorar.».
«Mas, Anjo, eu quero ser verde, eu tenho que o ser. É essa a minha missão. Só assim vou conseguir a verdadeira inspiração e o verdadeiro talento para escrever as minhas histórias. Se o não fizer, nunca serei capaz de me comparar aos grandes contadores de histórias da região. E sem isso, nunca poderei ganhar dinheiro para sustentar a minha família.»
«Oh insensata Maria, enquanto te prenderes a essa ideia, jamais poderás alcançar aquilo que realmente precisas! Mas vou ajudar-te. Foi para isso que vim. Sou eu quem vai pegar na arca e colocá-la no topo da montanha. Apenas para que sintas que a tua missão foi cumprida. Quando isso acontecer, descobrirás que a bruxa te enganou. Ninguém muda de cor ou de aparência desta maneira. E tu não és excepção. Não serás verde. Mas, se desceres a encosta desta montanha, ao longo do caminho encontrarás um caderno de capa de coiro, uma pena e um frasco de tinta. Recolhê-los-ás e regressarás a casa. Aí, sentar-te-ás à tua secretária, junto à janela e começarás a escrever. E verás que, com a magia destes objectos, escreverás as mais lindas histórias que te trarão o dinheiro de que precisas.» E, dito isto, a luz doirada começou a desaparecer e, aos poucos, devolveu a negrura ao céu nocturno e o brilho às estrelas que a olhavam de lá de cima.
Quando Maria acordou, de manhã bem cedo, a arca desaparecera. Assustada, receando que aquele Anjo não tivesse sido mais do que um sonho, Maria correu pela encosta acima até que, numa clareira, o espaço aberto entre as copas das árvores lhe permitiram ver o topo da montanha. E lá avistou a arca que durante tanto tempo carregara. Como que por magia, a sua missão estava cumprida. Como o Anjo dissera. E sem que o verde colorisse a sua pele.
Sem saber se deveria ficar alegre ou triste, mas tomada de uma enorme sensação de alívio, iniciou o percurso que a levaria à base da montanha, de regresso a casa. Depois de dois dias de caminho, encontrou no meio da vereda uma bolsa. Sem suspeitar do que se tratava, pegou nela a medo e abriu-a. E foi com alegria que constatou que eram verdadeiras as palavras do anjo. Um caderno com as páginas em branco. Um tinteiro de vidro com tinta preta e uma linda pena branca, de ganso. Eram aqueles os objectos que o Anjo lhe enviara para que pudesse ser uma grande contadora de histórias. Finalmente, o seu verdadeiro sonho concretizar-se-ia.
Maria regressou a casa. A família, pressentindo o final daquela aventura sem sentido e o início de uma nova época de tranquilidade e prosperidade, saudou-a e envolveu-a em todo o seu amor. Logo que pôde fazê-lo, Maria colocou o caderno em cima da sua secretária, aberto na primeira página, deitou a pena em frente ao caderno, e no canto da mesa poisou o tinteiro. E, mal se sentou para escrever, novas ideias e novos mundos começaram a surgir nas sua mente. Novas histórias começaram a ganhar forma naquelas folhas de papel. Sem que precisasse de mudar o seu corpo ou a sua mente. Sem precisar de ser verde.
Bastou-lhe ser quem era para poder dar forma aos seus sonhos.
História escrita por mim para a Fábrica de Histórias

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Passageiro Branco

« (...) com todo o meu amor,
Jorge.

P.S.: Passei a carta toda a andar às voltas, e não consegui dizer-te o que queria. Talvez por medo de te desiludir. Talvez por recear não estar à altura das tuas expectativas. Mas há algo sobre mim que deves saber. Não serei um bom filho se não te contar quem verdadeiramente sou, minha mãe.
Sempre me ensinaste tudo o que é necessário para sobreviver neste mundo cruel e agressivo. Ensinaste-me a lutar. Ensinaste-me que os fins justificam os meios. Ensinaste-me que o bom guerreiro não olha a meios para ganhar as suas batalhas. E assim fiz, desde cedo. Assim que o pai me ensinou a conduzir, tinha eu 16 anos, comecei a tentar comprar um carro. Mas era impossível. Mesmo com alguns trabalhos de Verão, nunca conseguiria o dinheiro necessário para comprar um carro bem velho. Foi aí que comecei a perceber o que me ensinavas. Com um amigo, o Carlos, percorria as ruas da cidade durante a noite e, sempre que encontrávamos um carro que nos agradava, abríamo-lo e ligávamo-lo. E corríamos pelas estradas a grandes velocidades até a gasolina acabar. No sítio onde estivéssemos, recorrendo ao mesmo procedimento, regressávamos. Muitas vezes tarde demais para as aulas, mas essa era a última das nossas preocupações. Nunca soubeste para onde eu ia, mas também nunca te mostraste sequer curiosa. A ti bastava-te que eu fosse às aulas e passasse todos os anos. E assim fui fazendo.
Uns anos mais tarde, quando conheci um homem capaz de modificar um carro até que ele ficasse irreconhecível, não deixei o carro em que passara a noite anterior. Era o meu carro de sonho. E, a troco de uns favores, esse homem mudou todo o carro, conseguiu documentos e uma matrícula nova e – magia! – assim tive o meu primeiro carro.
Nem me perguntaste como o conseguira. Apenas disseste. “É lindo filho! Como tu. Mas tem cuidado com o que fazes. O bom guerreiro não se deixa apanhar!”. Desconcertado, ainda tentei que me explicasses o que querias dizer, mas nada mais disseste. Ficou a certeza de que sabias como tinha arranjado o carro. E de que não reprovavas os meus meios.
Fiquei, portanto, a dever favores àquele homem, que nada se inibia em mos cobrar. Começou com pequenos roubos, depois assaltos maiores, até ao dia em que me pediu para matar um homem. Por esta altura já tinham decorrido anos desde o meu primeiro carro, que entretanto já substituíra várias vezes.
Sentia-me preso por aquele homem que me chantageava constantemente. Sentia um dever de gratidão e pagava com tudo o que me pedia. Mas nunca consegui fazê-lo sem pensar que aquelas pessoas a quem roubava eram inocentes e não mereciam o que lhes estava a fazer. Sim, eram inocentes, eu sabia-o porque era ele quem mo dizia. Tentava arrancar esta culpa dentro de mim. Afinal, o bom guerreiro não olha a meios para alcançar a vitória. Eram estas tuas palavras que silenciavam os gritos cada vez mais altos da minha consciência.
Mas quando ele me mandou matar um homem, apenas porque lhe devia meia dúzia de contos depois de um jogo de póker, achei que era demais. A partir dali, o que mais me pediria ele? Ficaria dependente dele pelo resto da vida? Que vida seria a minha, então? Matei, sim, um homem nessa altura, mas foi o meu chantagista e não o seu devedor.
Liberdade. Vitória. “O guerreiro que vence não olha aos meios que usa!”.
Continuei a estudar, mas levava uma vida paralela. Tinha que arranjar dinheiro para responder às nossas necessidades. O meu carro. A casa nova com que tanto sonhavas. A viagem que a mana queria fazer à Disney. Precisava de dinheiro. Com tudo o que aprendera naqueles anos com aquele homem, consegui dinheiro para tudo isto.
Porém, a cada dia que passava, as tuas palavras deixavam de ser suficientes para calar aquela voz que agora berrava constantemente. A minha consciência. O meu “passageiro branco”, que me tentava puxar das trevas do mundo em que me estava a afundar, numa urgência de alcançar riquezas que, apesar de supérfluas, ocupavam todas as minhas aspirações. Como se a minha culpa se tivesse materializado num qualquer ente ebúrneo que, de mão estendida, me tentava resgatar para o caminho da luz.
Um dia passei por um mendigo que gritava, numa voz enrouquecida de aguardente “Ajudar um pobre é comprar um lugar no céu! Ajudem-me por favor.” Ao ouvi-lo, sabia qual seria o destino de qualquer dinheiro que lhe pudesse ser dado. Álcool. Mas ainda assim, a promessa daquele lugar no céu enchia o meu coração de esperança. O alívio para a minha consciência de guerreiro vitorioso! Dirigi-me ao homem e convidei-o para jantar numa tasca ali perto. No final da refeição, deixei-lhe o meu casaco, para o proteger do gélido vento de Inverno. E o sorriso que vi no seu rosto aqueceu-me a alma. Por uns dias a culpa saiu de cima dos meus ombros e fui novamente livre.
Mãe, a minha vida estava perante uma encruzilhada. Podia aproveitar aquela sensação deliciosa e começar uma vida nova. E voltava a viver naquela barraca a que chamávamos casa? Abdicava de tudo o que tinha conquistado? Nem pensar. Então não era eu um guerreiro? Não devia eu zelar pela felicidade da minha família? Quando o dinheiro começou a escassear, a resposta surgiu por si só. “Um guerreiro não olha a meios…”.
Mãe, sei que querias ter um filho bravo, corajoso e sem receios. Uma alma sólida que perseguisse a sua missão e os seus objectivos, sem culpa nem fraquezas. Tentei ser esse homem, mas não consegui. Falhei. Ganhei todas as batalhas. E para isso roubei, enganei, menti… matei. Mas a fraqueza fazia parte de mim. Aquele “passageiro branco” dentro de mim teimava em falar alto. Em fazer-se ouvir.
Podia ter recorrido ao álcool, como o pai fez tantas vezes para fugir aos problemas. Quem sabe ébrio conseguisse não ouvir os gritos persistentes da minha consciência. Mas não. Não depois do que senti depois do episódio do mendigo. Por isso, tempos a tempos, encontrava alguém e dava, secretamente, parte do meu dinheiro e dos meus bens para o ajudar. Famílias à beira do colapso. Pessoas em pobreza extrema. Crianças abandonadas. Volta e meia escolhia, de modo meio aleatório, uma pessoa e assim embriagava aquela voz que tanto me doía na alma.
Hoje mãe, tenho sucesso. O teu guerreiro lutou e venceu todas as suas vitórias, sem nunca ter sido apanhado. Muitas vezes a polícia tentou chegar a mim, mas sem sucesso. Tive bons mestres. A minha empresa é afamada e continua a crescer. Nem vale a pena pensarmos em como é que esse sucesso é garantido. Ambos sabemos que “o bom guerreiro não olha a meios!”. Mas a minha fraqueza permanece. Desculpa mãe. Não te quero desiludir mas este sou eu. E já não são só pessoas que tento ajudar. São associações de caridade e instituições humanitárias também. Hoje chama-se a isso “responsabilidade social”. Que nome pomposo para aquilo que faço desde tão novo: calar este meu “passageiro branco”, que não deixa o seu guerreiro afundar-se nas trevas.
Já é tarde para apagar tudo o que fiz para ganhar as minhas batalhas. As nossas batalhas. Mas, mãe, por favor diz que me aceitas como eu sou. Quem sabe assim, mesmo não apagando o passado, eu possa reescrever o meu futuro. Um futuro em que brilhe finalmente a luz… »
História de ficção escrita por mim para a "Fábrica de Histórias"