terça-feira, 4 de outubro de 2011

Campeão

Campeonato Nacional de Escrita Criativa


Desafio #11

Recorde o professor mais assustador que já tiveste. Depois imagine como seria um reencontro com ele. (máximo: 400 palavras)



É a prova decisiva. As conversas excitadas e os gritos do público atroam e repetem-se num eco, ampliadas no enorme espaço fechado da piscina.
Ao varrer a bancada com os olhos, reconhece a silhueta encarquilhada do velho sentado no canto mais próximo da meta. De óculos encavalitados na ponta do nariz adunco, espreita avidamente para a piscina. Mas ainda faltam mais de cinco minutos para a partida.
Passaram muitos anos desde a última vez que o viu, mas reconhece-o ao primeiro relance. O professor Martins, o seu primeiro professor de natação.
Filipe não sabia ainda nadar, na sua primeira aula de natação. Mas o professor gritava, como se os sons que expelia com veemência pudessem, miraculosamente, transformá-lo num peixe. Alinhados na beira da piscina, todos os seus colegas saltaram para a água. Mas não o aterrorizado Filipe. Até que uma mão pesada, de ossos salientes, o empurrou. A profundidade era reduzida mas, tomado pelo pânico, Filipe debatia-se horrorizado. Cada segundo parecia durar horas. O terror aumentava. Ia morrer afogado. Por sobre os gritos e gargalhadas das outras crianças, a voz de trovão do professor Martins gritou “Agarra o pau. Olha para cima e agarra o pau”. E lá estava uma vara robusta, à qual lançou a mão. Só quando se sentiu içado de regresso ao chão firme conseguiu voltar a respirar. E só depois dos pais conseguirem outro professor é que aprendeu a nadar.
Passaram 20 anos. Tudo mudou. Não só aprendeu a nadar, como é campeão europeu de natação. É para recuperar o título que vai competir dali a instantes. Mas a visão daquele homem perturba-o.
“Não sabes quem eu sou” – pensa – “mas daqui a pouco eu próprio to direi. E nessa altura vou ter uma medalha ao pescoço e vou mostrar-te que a tua monstruosidade é inútil. Não precisei de ti para chegar onde cheguei!”.
Chega a hora. Respira bem fundo e olha fixamente a água, tentando concentrar-se. Toma posição e, quando soa o sinal de partida, torna-se uno com a água e todos os pensamentos esvaecem. O seu corpo move-se sozinho, em braçadas poderosas.
*
Vitória.
*
Logo que pode, sai do pódio em passos largos. Dirige-se ao canto acima do qual Martins permanece, na bancada. Olha-o nos olhos e ergue a medalha acima da cabeça, exibindo-a com uma expressão de desafio no rosto.
O velho, desconcertado, olha-o pasmado. Quem é aquele homem?

2 comentários:

  1. Olá Moon :) Já tinha saudades de vir aqui, beber um pouco das emoções contidas nas tuas palavras e que generosamente partilhas. Tens praticado e isso é muito positivo, pois só se evolui, escrevendo, escrevendo e escrevendo.Já eu tenho estado afastado das palavras, na realidade acho que tenho estado afastado de tudo. Voltarei para ler todos os teus textos, um de cada vez que vier, tal como faria (na teoria:) com uma caixa de bombons sortidos, um prazer diferente para cada momento.Assim não se misturam sabores e a caixa dura ;)

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  2. Que sejas bem vindo meu amigo!!! A tua ausência começava a ser sentida aqui por este canto de devaneios. Espero que tenhas vindo para ficar, e que os meus humildes escritos possam servir de motivação para essa "estadia".

    Um abraço

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