domingo, 3 de abril de 2011

Menina da lua

Abro os olhos sem saber que horas são. Aliás, este é o meu estado natural. Neste quarto sempre igual, os dias e noites não são mais que remotas miragens que se confundem entre si. O tempo deixou de correr para mim. Alterno entre o sono e a vigília seja de noite ou de dia, como se o meu corpo tivesse abandonado o ritmo do sol e da lua e ganho um ritmo próprio. Afinal, ao fim de nove décadas, já ganhou direito a que nada nem ninguém mande nele…

À minha volta os primeiros sons matutinos começam a ouvir-se. Mulheres velhas que gritam e se debatem porque as levantam das suas camas para mais um banho. Pois, ainda é de madrugada! É a esta hora que começam os banhos. E as auxiliares que tentam realizar este trabalho falam em voz alta, para se fazerem ouvir, alternando entre um tom infantilizador e palavrões rudes quando a frustração vem ao de cima. Uma a uma, vai chegando a vez de cada uma das minhas companheiras. E a minha vez chega também.

Tomei banho ontem, dizem-me, por isso basta-me fazer a higiene matinal. A minha memória já não me devolve imagens de tal, mas sigo as instruções. Em frente ao lavatório, enquanto passo as mãos molhadas pelo rosto e pelo cabelo, olho o espelho e mal reconheço o rosto enrugado e o cabelo totalmente branco que o espelho mostra. Bem, a verdade é que os meus olhos vêem já tão pouco, que dificilmente reconheceria fosse quem fosse. As minhas pernas começam a debater-se com a verticalidade. Tremem como se carregassem um incomensurável peso. Tenho medo de cair e devagar, deixo-me tombar sobre a cadeira de rodas que me levou até ali, para que me levem de volta à cama. Vai começar mais um dia eterno neste lar que de casa nada tem.

Quando finalmente os cuidados terminam e consigo ficar numa posição confortável entre mantas e almofadas, apodera-se de mim a tristeza imensa que há anos me acompanha. Para quê viver assim? Qual o objectivo de ver passar os dias que jamais serão diferentes? Esperar pela morte. É o meu entretém diário. A minha esperança. Porque a anseio mais do que receio. O dia em que finalmente me liberte deste corpo que me trai a cada minuto, deste coração que ameaça parar, destes pulmões que já não me dão o ar que preciso, destas pernas que já não andam, deste olhos que já não vêem… Quero descansar, finalmente.

Dizem que do outro lado encontrarei aqueles que ao longo de tantos anos fui perdendo. Os meus irmãos. O meu pai. O meu adorado marido (há tantos anos que partiu…). A minha mãe, que de há uns tempos para cá ocupa cada vez mais espaço na minha memória. Todos eles esperam por mim. E eu quero revê-los. Tanto…

Há, no entanto, algo que ainda me prende aqui. Que me faz suportar esta vida torturada de ser que de todos depende. A minha família. Antes de partir, quero saber que todos vão ficar bem. Que todos terão a vida organizada e pronta, como merecem. Aí sim posso ceder. Posso perder a batalha e ganhar a guerra. Morrer finalmente. Mas até lá, luto todos os dias por mais um dia de espera até que a vida de todos se componha.

Pela janela o sol já entra, mas o sono regressa. Chega em novelos de consolo. A turvescência dos meus olhos começa a escurecer e os meus cansados músculos a abandonar a rigidez.

E sou novamente uma garota livre que acorda na sua cama, rodeada dos seus irmãos que dormem sossegados à sua volta. Sou a menina de longos cabelos loiros que era há oitenta anos atrás.

Levanto-me ligeira e, pé ante pé para não acordar ninguém, vou até à janela e abro-a. Uma aragem fria faz os meus cabelos esvoaçar. Mas sabe tão bem! Do lado de lá da janela, a lua olha para mim e ilumina-me, como se me convidasse a sair. Como se me dissesse “A minha luz guiar-te-á. Sai para o mundo e descobre-o nas cores da noite!

Muitas vezes a lua me fez este apelo insensato. E eu, sensatamente, de todas as vezes recusei. Mas não quero mais ser sensata, porque hoje sou a menina de dez anos a sonhar com uma mente de noventa. A janela é baixa. Sento-me no parapeito, rodo as pernas para fora e um pequeno salto põe os meus pés em contacto com a terra áspera.

Hoje vou ver o que a noite me mostra e o sol me esconde. Hoje sou uma menina à solta no reino da lua.


Não quero mais acordar…


História fictícia escrita por mim para a Fábrica de Histórias

quarta-feira, 9 de março de 2011

Não Ser

Atirei o meu corpo exausto para cima da relva e ali fiquei. Não sei por quanto tempo.
Subi ao cimo de mim e vi-me adormecida num sono profundo, com um leve sorriso assomando aos lábios. O desconhecido era completo. Mas não havia medo. Não havia emoções.
Dei por mim transformada num ser completamente diferente. O Universo mudara. Eu mudara. As regras eram outras. As leis da Física tinham sido deixadas para trás. Inimaginável. Inconcebível. Mas real.
Fechara os olhos e pairava agora no vazio. Por entre a matéria, imaterialmente. Sem chão nem tecto. Sem barreiras nem obstáculos. Vagava pelo espaço vazio. Apenas pairava.
Estava consciente mas não sentia. Olhava o passado, sem arrependimento nem nostalgia. Via o futuro sem nada ansiar. Via, pensava, mas não sentia. Nem tristeza nem alegria. Nem raiva, nem amor. Apenas era.
Estava e não estava. Em qualquer lugar. Em todos os lugares e em lugar nenhum. Em todos os tempos e em tempo nenhum. Apenas estava.
O mundo não era mais do que apenas uma paragem possível, entre muitas, entre um Universo inteiro, facilmente acessível e à distância de um pensamento. Da minha vontade.
As pessoas em meu redor passavam por mim, tocavam-me, mas sempre alheias à minha presença. À minha existência. Imaterial e Invisível.
Seria assim depois da morte? Estaria eu morta? - Confirmei. Não, a respiração lenta e regular denunciavam um simples sonho. Seria esta a essência dos Anjos?
Acordei, sobressaltada.
Demasiadamente real para ser um sonho.
Mas nenhuma outra coisa poderia ter sido.
Tantas perguntas por responder...

terça-feira, 8 de março de 2011

A menina que queria ser verde

Maria vivia numa aldeia junto a um bosque. Desde pequena que percorria a floresta e que a conhecia como a palma das suas mãos. Em criança a sua brincadeira favorita era jogar às escondidas na floresta. Bem escondida, embrenhada na vegetação, passava momentos de puro deleite a contemplar as aves, as flores, as árvores. Era o verde da vegetação o que mais admirava. Em diferentes tonalidades, com matizes de luz e de sombra, aquele verde prendia-lhe a atenção. Captava o seu olhar, que por ali permanecia por horas e horas.
Um dia, num devaneio de criança, decidiu que queria ser verde como aquelas árvores magníficas. Queria que a sua pele e os seus cabelos se tingissem daquelas tonalidades admiráveis. Não apenas pelo tanto que gostava delas, mas também porque assim conseguiria ludibriar as restantes crianças, que desse modo jamais a conseguiriam encontrar nos seus jogos de esconde-esconde.
Poderia ter sido apenas uma ideia passageira na mente volátil de uma criança, mas a verdade é que, a partir daquele dia, Maria envidou todos os esforços para que, ganhando o seu corpo tonalidades de verde, pudesse transformar-se num ser daquele bosque frondoso. O devaneio transformou-se em sonho. E o sonho tornou-se objectivo.
Por muito tempo, para além do tempo em que as crianças deixam de o ser e os jogos de esconde-esconde deixam de fazer sentido, Maria fez tudo o que sabia ou imaginava para alcançar o seu objectivo. Já adulta, quando já não brincava e a sua principal ocupação era ser a contadora de histórias da aldeia, aquela ideia não saíra da sua cabeça. Era na floresta que obtinha a inspiração para escrever as suas histórias. E, no fundo da sua mente, achava que ao tornar-se um ser da floresta, uma menina verde, poderia fundir-se com ela. E ao fundir-se, usufruir permanentemente da inspiração que, sem excepção, dali obtinha. E assim alimentava a sua busca, quando parecia que já perdera o sentido.
Mas todos os seus esforços redundaram em fracasso. O único resultado? Admoestações constantes da família e olhares de soslaio dos restantes aldeãos, que assim a viam como a rapariga louca que contava histórias às suas crianças.
Um dia, numa das suas demandas por inspiração pela floresta, Maria encontrou uma bruxa. Sabia quem era, pois era lenda famosa na aldeia. E era temida por quantos nela viviam. Ainda assim, Maria não hesitou e fez o seu pedido. «Quero ser verde». Ao que a bruxa respondeu «Sê-lo-ás, se pegares nesta arca que o meu jumento carrega e, sozinha, a colocares no topo da montanha mais alta.».
Maria nem queria acreditar no que ouvia. Era apenas aquilo que a separava da concretização do seu sonho? Parecia bom de mais para ser verdade. E de facto, veio a descobrir que assim era, logo que tentou carregar a arca. O peso era imenso. Nem para um homem com o dobro da sua força seria possível carregar aquela enorme arca cujo conteúdo desconhecia. Mas não desistiu. Com a tenacidade que revelara ao longo de todos aqueles anos, Maria arregaçou as mangas e pôs as mãos à obra.
Milímetro a milímetro, arrastou a enorme arca, parecendo que a cada minúsculo avanço se lhe esvaíam as forças. Sob calor abrasador ou debaixo de chuvas torrenciais continuava esta hercúlea tarefa, apenas com pequenas pausas para dormir ou alimentar-se. Adormecia e acordava a pensar em maneiras para conseguir transportar a sua enorme carga. E muitas vezes até em sonhos estes pensamentos não a abandonavam. Muitas vezes pensava em desistir. Para quê aquilo tudo? Para quê, se na verdade sempre tinha sido capaz de escrever e contar as suas histórias e o modo como o fazia sempre fora suficientemente bom para ganhar sustento e a admiração de quem a ouvia? Mas aquela vozinha de criança jamais a abandonava e impelia-a a prosseguir.
Uma noite, em que adormecera de pura exaustão se mesmo ter comido o jantar que a mãe lhe levara, Maria teve o mais estranho dos sonhos. Um ser iluminado por uma majestosa luz doirada apareceu, iluminando todo o céu da noite até que as estrelas se tornaram pálidas. Este ser, este Anjo, como lhe chamou, pairava no ar e falou-lhe com a mais doce das vozes. Uma voz de onde ressoava amor puro e pura magia.
«Maria» disse «para quê tanto sofrimento para no final nada teres? Sabes tão bem quanto eu que este não é o teu lugar. Queres ser verde, mas sabes que não precisas de o ser. Tudo o que precisas de ser está dentro de ti. As tuas histórias já são lindas e inspiradas. Mudares a cor da pele ou o que quer que seja em ti não melhorará nada. Porque já não há nada para melhorar.».
«Mas, Anjo, eu quero ser verde, eu tenho que o ser. É essa a minha missão. Só assim vou conseguir a verdadeira inspiração e o verdadeiro talento para escrever as minhas histórias. Se o não fizer, nunca serei capaz de me comparar aos grandes contadores de histórias da região. E sem isso, nunca poderei ganhar dinheiro para sustentar a minha família.»
«Oh insensata Maria, enquanto te prenderes a essa ideia, jamais poderás alcançar aquilo que realmente precisas! Mas vou ajudar-te. Foi para isso que vim. Sou eu quem vai pegar na arca e colocá-la no topo da montanha. Apenas para que sintas que a tua missão foi cumprida. Quando isso acontecer, descobrirás que a bruxa te enganou. Ninguém muda de cor ou de aparência desta maneira. E tu não és excepção. Não serás verde. Mas, se desceres a encosta desta montanha, ao longo do caminho encontrarás um caderno de capa de coiro, uma pena e um frasco de tinta. Recolhê-los-ás e regressarás a casa. Aí, sentar-te-ás à tua secretária, junto à janela e começarás a escrever. E verás que, com a magia destes objectos, escreverás as mais lindas histórias que te trarão o dinheiro de que precisas.» E, dito isto, a luz doirada começou a desaparecer e, aos poucos, devolveu a negrura ao céu nocturno e o brilho às estrelas que a olhavam de lá de cima.
Quando Maria acordou, de manhã bem cedo, a arca desaparecera. Assustada, receando que aquele Anjo não tivesse sido mais do que um sonho, Maria correu pela encosta acima até que, numa clareira, o espaço aberto entre as copas das árvores lhe permitiram ver o topo da montanha. E lá avistou a arca que durante tanto tempo carregara. Como que por magia, a sua missão estava cumprida. Como o Anjo dissera. E sem que o verde colorisse a sua pele.
Sem saber se deveria ficar alegre ou triste, mas tomada de uma enorme sensação de alívio, iniciou o percurso que a levaria à base da montanha, de regresso a casa. Depois de dois dias de caminho, encontrou no meio da vereda uma bolsa. Sem suspeitar do que se tratava, pegou nela a medo e abriu-a. E foi com alegria que constatou que eram verdadeiras as palavras do anjo. Um caderno com as páginas em branco. Um tinteiro de vidro com tinta preta e uma linda pena branca, de ganso. Eram aqueles os objectos que o Anjo lhe enviara para que pudesse ser uma grande contadora de histórias. Finalmente, o seu verdadeiro sonho concretizar-se-ia.
Maria regressou a casa. A família, pressentindo o final daquela aventura sem sentido e o início de uma nova época de tranquilidade e prosperidade, saudou-a e envolveu-a em todo o seu amor. Logo que pôde fazê-lo, Maria colocou o caderno em cima da sua secretária, aberto na primeira página, deitou a pena em frente ao caderno, e no canto da mesa poisou o tinteiro. E, mal se sentou para escrever, novas ideias e novos mundos começaram a surgir nas sua mente. Novas histórias começaram a ganhar forma naquelas folhas de papel. Sem que precisasse de mudar o seu corpo ou a sua mente. Sem precisar de ser verde.
Bastou-lhe ser quem era para poder dar forma aos seus sonhos.
História escrita por mim para a Fábrica de Histórias

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Passageiro Branco

« (...) com todo o meu amor,
Jorge.

P.S.: Passei a carta toda a andar às voltas, e não consegui dizer-te o que queria. Talvez por medo de te desiludir. Talvez por recear não estar à altura das tuas expectativas. Mas há algo sobre mim que deves saber. Não serei um bom filho se não te contar quem verdadeiramente sou, minha mãe.
Sempre me ensinaste tudo o que é necessário para sobreviver neste mundo cruel e agressivo. Ensinaste-me a lutar. Ensinaste-me que os fins justificam os meios. Ensinaste-me que o bom guerreiro não olha a meios para ganhar as suas batalhas. E assim fiz, desde cedo. Assim que o pai me ensinou a conduzir, tinha eu 16 anos, comecei a tentar comprar um carro. Mas era impossível. Mesmo com alguns trabalhos de Verão, nunca conseguiria o dinheiro necessário para comprar um carro bem velho. Foi aí que comecei a perceber o que me ensinavas. Com um amigo, o Carlos, percorria as ruas da cidade durante a noite e, sempre que encontrávamos um carro que nos agradava, abríamo-lo e ligávamo-lo. E corríamos pelas estradas a grandes velocidades até a gasolina acabar. No sítio onde estivéssemos, recorrendo ao mesmo procedimento, regressávamos. Muitas vezes tarde demais para as aulas, mas essa era a última das nossas preocupações. Nunca soubeste para onde eu ia, mas também nunca te mostraste sequer curiosa. A ti bastava-te que eu fosse às aulas e passasse todos os anos. E assim fui fazendo.
Uns anos mais tarde, quando conheci um homem capaz de modificar um carro até que ele ficasse irreconhecível, não deixei o carro em que passara a noite anterior. Era o meu carro de sonho. E, a troco de uns favores, esse homem mudou todo o carro, conseguiu documentos e uma matrícula nova e – magia! – assim tive o meu primeiro carro.
Nem me perguntaste como o conseguira. Apenas disseste. “É lindo filho! Como tu. Mas tem cuidado com o que fazes. O bom guerreiro não se deixa apanhar!”. Desconcertado, ainda tentei que me explicasses o que querias dizer, mas nada mais disseste. Ficou a certeza de que sabias como tinha arranjado o carro. E de que não reprovavas os meus meios.
Fiquei, portanto, a dever favores àquele homem, que nada se inibia em mos cobrar. Começou com pequenos roubos, depois assaltos maiores, até ao dia em que me pediu para matar um homem. Por esta altura já tinham decorrido anos desde o meu primeiro carro, que entretanto já substituíra várias vezes.
Sentia-me preso por aquele homem que me chantageava constantemente. Sentia um dever de gratidão e pagava com tudo o que me pedia. Mas nunca consegui fazê-lo sem pensar que aquelas pessoas a quem roubava eram inocentes e não mereciam o que lhes estava a fazer. Sim, eram inocentes, eu sabia-o porque era ele quem mo dizia. Tentava arrancar esta culpa dentro de mim. Afinal, o bom guerreiro não olha a meios para alcançar a vitória. Eram estas tuas palavras que silenciavam os gritos cada vez mais altos da minha consciência.
Mas quando ele me mandou matar um homem, apenas porque lhe devia meia dúzia de contos depois de um jogo de póker, achei que era demais. A partir dali, o que mais me pediria ele? Ficaria dependente dele pelo resto da vida? Que vida seria a minha, então? Matei, sim, um homem nessa altura, mas foi o meu chantagista e não o seu devedor.
Liberdade. Vitória. “O guerreiro que vence não olha aos meios que usa!”.
Continuei a estudar, mas levava uma vida paralela. Tinha que arranjar dinheiro para responder às nossas necessidades. O meu carro. A casa nova com que tanto sonhavas. A viagem que a mana queria fazer à Disney. Precisava de dinheiro. Com tudo o que aprendera naqueles anos com aquele homem, consegui dinheiro para tudo isto.
Porém, a cada dia que passava, as tuas palavras deixavam de ser suficientes para calar aquela voz que agora berrava constantemente. A minha consciência. O meu “passageiro branco”, que me tentava puxar das trevas do mundo em que me estava a afundar, numa urgência de alcançar riquezas que, apesar de supérfluas, ocupavam todas as minhas aspirações. Como se a minha culpa se tivesse materializado num qualquer ente ebúrneo que, de mão estendida, me tentava resgatar para o caminho da luz.
Um dia passei por um mendigo que gritava, numa voz enrouquecida de aguardente “Ajudar um pobre é comprar um lugar no céu! Ajudem-me por favor.” Ao ouvi-lo, sabia qual seria o destino de qualquer dinheiro que lhe pudesse ser dado. Álcool. Mas ainda assim, a promessa daquele lugar no céu enchia o meu coração de esperança. O alívio para a minha consciência de guerreiro vitorioso! Dirigi-me ao homem e convidei-o para jantar numa tasca ali perto. No final da refeição, deixei-lhe o meu casaco, para o proteger do gélido vento de Inverno. E o sorriso que vi no seu rosto aqueceu-me a alma. Por uns dias a culpa saiu de cima dos meus ombros e fui novamente livre.
Mãe, a minha vida estava perante uma encruzilhada. Podia aproveitar aquela sensação deliciosa e começar uma vida nova. E voltava a viver naquela barraca a que chamávamos casa? Abdicava de tudo o que tinha conquistado? Nem pensar. Então não era eu um guerreiro? Não devia eu zelar pela felicidade da minha família? Quando o dinheiro começou a escassear, a resposta surgiu por si só. “Um guerreiro não olha a meios…”.
Mãe, sei que querias ter um filho bravo, corajoso e sem receios. Uma alma sólida que perseguisse a sua missão e os seus objectivos, sem culpa nem fraquezas. Tentei ser esse homem, mas não consegui. Falhei. Ganhei todas as batalhas. E para isso roubei, enganei, menti… matei. Mas a fraqueza fazia parte de mim. Aquele “passageiro branco” dentro de mim teimava em falar alto. Em fazer-se ouvir.
Podia ter recorrido ao álcool, como o pai fez tantas vezes para fugir aos problemas. Quem sabe ébrio conseguisse não ouvir os gritos persistentes da minha consciência. Mas não. Não depois do que senti depois do episódio do mendigo. Por isso, tempos a tempos, encontrava alguém e dava, secretamente, parte do meu dinheiro e dos meus bens para o ajudar. Famílias à beira do colapso. Pessoas em pobreza extrema. Crianças abandonadas. Volta e meia escolhia, de modo meio aleatório, uma pessoa e assim embriagava aquela voz que tanto me doía na alma.
Hoje mãe, tenho sucesso. O teu guerreiro lutou e venceu todas as suas vitórias, sem nunca ter sido apanhado. Muitas vezes a polícia tentou chegar a mim, mas sem sucesso. Tive bons mestres. A minha empresa é afamada e continua a crescer. Nem vale a pena pensarmos em como é que esse sucesso é garantido. Ambos sabemos que “o bom guerreiro não olha a meios!”. Mas a minha fraqueza permanece. Desculpa mãe. Não te quero desiludir mas este sou eu. E já não são só pessoas que tento ajudar. São associações de caridade e instituições humanitárias também. Hoje chama-se a isso “responsabilidade social”. Que nome pomposo para aquilo que faço desde tão novo: calar este meu “passageiro branco”, que não deixa o seu guerreiro afundar-se nas trevas.
Já é tarde para apagar tudo o que fiz para ganhar as minhas batalhas. As nossas batalhas. Mas, mãe, por favor diz que me aceitas como eu sou. Quem sabe assim, mesmo não apagando o passado, eu possa reescrever o meu futuro. Um futuro em que brilhe finalmente a luz… »
História de ficção escrita por mim para a "Fábrica de Histórias"

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Bruxa do Metro

“És diferente. Amo-te exactamente como és!”. Foram estas as palavras do meu marido quando lhe contei sobre o meu “dom”. São estas as palavras que ele faz questão de honrar e demonstrar a cada dia que passa. O que faz dele o meu pilar de força, quando o mundo parece abater-se sobre os meus ombros. Uso esta palavra – “dom” - apenas por não saber que outra coisa chamar a esta peculiaridade que trago comigo desde o dia em que fiz doze anos de idade.
Foi nesse dia que, ao sair à rua, percebi que repentinamente, a minha visão mudara. De repente, não via apenas as pessoas que passavam. Em frente a cada uma delas, estendia-se como que uma tela translúcida, na qual se podiam ver outros cenários, pessoas, objectos que nada tinham a ver com a realidade que nos circundava. Como se nessa tela estivesse a ser projectado um filme em que a personagem principal era a pessoa que eu via por detrás dela. Aterrorizada, sem perceber o que se passava, corri para casa e tranquei-me no quarto, a chorar. Estaria a enlouquecer? O que era aquilo?
Foi a minha mãe que, depois de me acalmar, explicou o que se passava. Chamou-lhe um “dom” que percorria a nossa família desde os seus primórdios ancestrais. De duas em duas gerações nascia na nossa família uma criança com uma visão especial, capaz de ler os sonhos e desejos mais íntimos de cada pessoa. As cenas que eu via naquelas telas apenas visíveis para mim não eram mais do que representações dos sonhos das pessoas a quem as telas pertenciam. Os seus mais íntimos desejos e sonhos. Utopias para seres com vidas convencionais. A minha avó fora a última portadora daquele dom.
Vi-me de repente transformada num ser diferente. Uma aberração. Sempre que olhava em volta, telas e telas, sonhos e sonhos. Duas realidades sobrepostas apareciam sempre em simultâneo diante dos meus olhos. A realidade exterior e a realidade dos sonhos.
Acabei por me habituar a tudo aquilo. Aliás, ao fim de um tempo, conhecer os sonhos mais íntimos de quem me rodeava acabou mesmo por me divertir. Esta é uma capacidade perigosa quando posta à disposição de uma adolescente sem consciência das suas implicações. Naturalmente que a minha popularidade entre os colegas do liceu não beneficiou de tudo aquilo. Sobretudo quando os segredos deste e daquele começaram a ser revelados por mim sem dó nem piedade nem qualquer espécie de subtileza, apenas para meu divertimento. Não tardou que me apelidassem de “bruxa” e me pusessem de parte.
Felizmente a idade traz maturidade. E a maturidade ajuda-nos a ver o que nos rodeia de outra forma. Não, não perdi o meu dom. Mas aos poucos comecei a entendê-lo de outra forma. Saber os sonhos dos outros, por si só, valia de pouco. Se aquela capacidade nascera em mim, algum propósito teria que ter. Concretizar esses sonhos! Ajudar quem os tinha a alcançá-los. Com dezasseis anos, foi esta a missão que me atribuí a mim mesma. À medida que passava pelas pessoas na rua, abordava-as, falava-lhes dos seus sonhos e de como eu achava que deveriam proceder para alcançá-los. As reacções foram predominantemente negativas. Muitos repeliam as minhas visões dos seus sonhos, como se não fossem verdadeiras. Outros mostravam-se profundamente incomodados com a minha intrusão no mais íntimo de si. Outros ainda, não reconheciam qualquer legitimidade aos conselhos de uma adolescente que não conheciam.
Desanimada, confusa em sem rumo, desisti deste projecto. Fiquei à deriva sem perceber que sentido fazer de tudo o que eu era.
Mais uma vez, foi a minha mãe que me indicou o rumo. Num final de tarde em que me sentava junto à janela, reflectindo sobre tudo isto, ela apareceu junto de mim com um embrulho de papel pardo, acastanhado pelo tempo, enlaçado por uma fita de cetim azul já meio desbotado. Pertencera à minha avó, que incumbira a minha mãe, antes de morrer, de passar ao próximo portador do dom quando achasse que a hora era apropriada. E assim fez a minha mãe. Vendo-me triste e sem rumo, considerou que aquele era o momento.
Abri o embrulho para me deparar com um velho livro de capa de pele castanha, sem qualquer inscrição ou título. Os cantos e bordos gastos denunciavam a idade daquele volume, tal como as páginas frágeis e amarelecidas que se me abriram à medida que o desfolhava. Aquele livro percorria a minha família há incontáveis gerações. Aparentemente, um antepassado nosso debatera-se com o mesmo dilema que eu e encontrara no mundo do oculto as respostas às suas questões.
Parecia um livro de receitas. Mas estas eram receitas muito peculiares. Para cada sonho era indicada, passo a passo, uma ou mais formas de o concretizar. Encantamentos, feitiços e mezinhas. De um modo geral, todos os encantamentos apresentados funcionavam da mesma maneira. Era necessário, depois de identificar o sonho da pessoa a quem queria ajudar, obter qualquer coisa dessa pessoa – um fio de cabelo, uma fibra da sua roupa, um lenço, um jornal que tenha lido, uma moeda. Com este objecto, e concentrando-me no sonho que me era conhecido, passava ao encantamento, que variava de acordo com o tipo de sonho: jogar o objecto no mar, queimá-lo, expô-lo ao luar. As possibilidades eram inúmeras.
Afinal os meus colegas de liceu tinham razão: eu estava prestes a transformar-me numa “bruxa”. Deitei imediatamente mãos à obra. Depois de ler o livro, explorar todos os encantamentos e as anotações que foram sendo feitas pelos sucessores do seu autor, comecei a colocá-los em prática até que deixei de precisar de olhar o livro para os executar.
Desde essa altura, em paralelo com esta face mais obscura da minha existência, desenvolvi uma “vida normal”. Prossegui os estudos e hoje sou advogada. Na faculdade conheci o amor da minha vida, e já nos casámos há dois anos. É no caminho para o escritório, no centro da cidade, que escolho as pessoas cujos sonhos realizarei. É de madrugada, no metro, quando os passageiros ensonados não cortaram ainda totalmente o seu laço com o mundo dos sonhos, que melhor consigo perceber o que desejam. O que anseiam. Visto que a essa hora o metro é uma gigante lata de sardinhas, é sem dificuldade que consigo obter os objectos necessários para os encantamentos sem ser notada.
Os resultados apenas posso intuir ou interpretar pelas alterações de comportamento daquelas pessoas. Ou deixam de aparecer no metro. Ou aparecem um dia com um enorme sorriso que não conseguem disfarçar. Ou começam a mostrar alterações subtis na roupa, no andar, no modo como erguem a cabeça para enfrentar o mundo. Só eu percebo essas alterações porque só eu sei o que se passou.
Nunca ninguém chega a saber a origem da concretização dos seus sonhos. As minhas acções passam totalmente despercebidas, porque ninguém pode sequer imaginar que são possíveis. Mas isso pouco importa. A gratidão que me pudessem demonstrar seria totalmente desnecessária. Basta-me saber que fiz alguém feliz. Altruísmo? Não! É apenas uma necessidade premente criada por uma peculiaridade hereditária que me transformou, acidentalmente, numa bruxa.
História de ficção escrita por mim para a Fábrica de Histórias

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Asas

Tudo começou com uma dor nas costas. Como sempre fui praticante de desporto, pensei que fosse apenas o meu corpo a acusar excesso de esforço (o que, diga-se, seria bem provável). Ignorei-a. Mas com o passar do tempo, a dor não desapareceu. Pelo contrário, foi crescendo gradualmente, até ser impossível ignorá-la. Tomou conta de mim insidiosamente. Num tenebroso crescendo. Deixei de conseguir encostar-me ao sofá, de praticar desporto, de domir à noite. Até que respirar se tornou um acto de puro sacrifício.
Impunha-se uma ida ao médico. Que ficou estupefacto com o que viu. Sem nenhuma explicação razoável, na radiografia viam-se duas massas ósseas imediatamente abaixo das omoplatas, simétricas, uma de cada lado da coluna. Ninguém conseguia imaginar do que tratasse. Depois de muitos exames, a origem do meu estranho mal era desconhecida. E ninguém conseguiu imaginar melhor tratamento para além de medicamentos para as dores. Que não resultaram.
As dores eram insuportáveis. Já nem conseguia sair de casa. Andava de um lado para o outro, porque nem sentada nem de pé conseguia encontrar uma posição em que as dores fosse menores. Os medicamentos atordoavam-me, mas nem assim aquela dor me abandonava.
Numa dessas minhas deambulações pela casa, ao passar em frente ao espelho notei pela visão periférica algo estranho no meu perfil. Dei um passo atrás e fiquei atónita. Através da camisola de pijama, justa, notava-se uma protuberância. Exactamente no sítio onde a dor me atacava. Exactamente no sítio onde se viam as tais formações ósseas no RX. Virei-me de costas para o espelho e espreitei por cima do ombro. Não era uma protuberância, mas duas. Simétricas. Entrei em pânico. Gritei. Estava a ficar deformada por algo desconhecido que nascera dentro de mim. Como seria a minha vida a partir dali? Não haveria mais desporto, não haveria mais passagens de modelos nem sessões de fotografias, que haviam sido o meu sustento até aí. Era o fim de minha vida. Gritei até não ter mais voz.
Não estava ninguém em casa. Ninguém me ouviu.
Os dias e semanas que se seguiram surgem enevoados na minha memória. Entre medicamentos para as dores, comprimidos para dormir e tranquilizantes, usei de tudo a que conseguia jogar a mão para atenuar a dor e me esquecer das minhas recém aparecidas deformidades. Poucos foram os momentos de lucidez que tive nesses tempos, porque poucas são as imagens que guardo deles. Dores lancinantes, à mistura com uma angústia profunda por achar que jamais voltaria a ser como dantes. E, claro, uma ou outra amedrontada mirada ao espelho, apenas para confirmar que a minha deformidade crescia a cada dia que passava.
Deixei de comer, deixei de sair da cama. Já só aguardava o momento em que a morte me livraria deste tormento.
Até que esta manhã, quando acordei, me apercebi que mesmo sem ter tomado qualquer
medicação, as dores haviam desaparecido. Deitada de lado, na cama, senti um peso diferente nas costas, que parecia tentar unir-me com o colchão. Reparei nos farrapos brancos da minha camisola espalhados pela cama. Teria sido eu a rasgá-la? Não me recordava de tal.
Virei-me de barriga para baixo, e com as mãos empurrei o meu corpo para cima. Nada doía. Apenas aquele peso desconfortável, agora em cima de mim. Num movimento rápido, tirei as pernas para fora da cama e, pela primeira vez em semanas, pousei os pés no chão. Parei um pouco, a sentir o frio do chão a entrar pela pele, como se a mostrar-me que estava viva, apesar de ter desejado não o estar durante tanto tempo. Finalmente, ergui-me, desajeitadamente porque aquele peso estranho teimava em puxar-me para trás. Em desequilibrar o meu centro de gravidade.
Foi quando me virei em direcção à porta do quarto, que notei algo de diferente. Um vulto ao meu lado virou-se num movimento síncrono com o meu e, imediatamente a seguir, o candeeiro da mesa de cabeceira foi derrubado e estilhaçou-se no chão. Assustada, olhei em volta e os meus olhos recaíram sobre o espelho. E só aí percebi o que se passava.
Duas enormes asas irrompiam das minhas costas. Enormes estruturas de osso, que transpareciam por entre a membrana translúcida de pele que as revestiam. Semelhantes às asas de um morcego, de um gigante morcego, estas asas partiam das minhas costas, exactamente no ponto que tanto me doera antes, e prolongavam-se lateralmente. Sem grande esforço consegui enrolá-las em torno de mim. Uma imitação das gárgulas de pedra que, com olhos vigilantes, repousam os seus corpos de pedra nos edifícios da cidade. Concentrei-me um pouco, atónita com tudo aquilo, e percebi que, como um braço ou uma perna, as asas obedeciam ao meu comando. Primeiro consegui abri-las novamente, e depois consegui que abanassem para a frente e para trás, como se me preparasse para um voo. E, de facto, o que aconteceu foi que, quando me verguei sob o seu peso, o meu corpo flutuou por instantes até que, aterrorizada, perdi o controlo do seu movimento e caí estatelada no chão.
Não quis acreditar, aliás, ainda não acredito. Benção ou maldição? Doença ou não? A verdade é que me transformei em algo que não sei o que é. Ainda olho apavorada o espelho, sem saber o que sou. Super-mulher? mulher-morcego? Ou simplesmente uma aberração da natureza? Haverão outros como eu? Não sei. Não há resposta para nenhuma das minhas perguntas.
A noite está a cair. Anseio pela escuridão protectora, para sair para a rua, à hora em que já ninguém passa e posso, sozinha, ensaiar novos movimentos, perceber a extensão das mudanças operadas em mim. Percebi que agora posso voar. Consegui alcançar o sonho que o Homem almeja desde o início da eternidade. Posso voar.
As consequências de tal fenómeno são ainda nebulosas para mim. Não consigo imaginar como será a minha vida a partir do dia de hoje. Assusta-me saber que sou uma aberração, diferente dos outros humanos. Mas sou também alguém especial, capaz de fazer o que mais ninguém consegue. Poderei dar cambalhotas no ar, voar livremente, competir com os pássaros velozes. Não é esse o sonho de todos os seres humanos?
Não sei a que se deve esta transformação. Não sei se algum dia terei respostas para tantas perguntas. Mas sei que hoje foi o dia em que as páginas do livro da minha vida se viraram. E que tenho uma página branca à minha frente, pronta para receber o que, com a minha mão, eu queira nela escrever...
História fictícia escrita por mim para a Fábrica de Histórias

sábado, 29 de janeiro de 2011

Pálida luz em mais um dia

Mais um dia. os meus joelhos rangem dolorosamente enquanto dou os primeiros passos trôpegos em direcção à casa de banho, como se o meu corpo se recusasse a continuar naquela rotina tão distante daquilo que eu sou. Gradualmente a minha visão vai perdendo a turvescência, a consciência vai clareando. Mais um dia.
Nó no estômago. Não são só os meus joelhos que teimam em querer regressar ao descanso morno da cama. Eu partilho desse sentimento. Não por preguiça, mas por receio daquilo que me espera.
Sei a que actividade a que me dedicarei em mais um dia. As que me são impostas e as que me imponho. Sei que o imprevisto espreita à esquina e que o que planeio ou espero pode mudar a qualquer momento, mas que apesar disso, há um rumo provável para o caminho que tomarei em mais um dia. E é esse rumo que me preenche as entranhas com uma substância escura e espessa que atormenta o meu corpo e o meu espírito.
Como todas as pessoas tenho qualidades e defeitos. Há coisas que faço coisas muito bem e coisas que faço muito mal. E há toda uma imensidão de outras coisas que se situam algures nesta bipolaridade. Todos somos assim. Mas o que acontece quando, de repente, exige de nós tudo aquilo que fazemos muito mal, e olha para o que fazemos muito bem como se de uma mera insignificância se tratasse?
A resposta? Acontece uma imensa batalha de uma pessoa consigo mesma, em que tudo o que há de bom em si se torna tão pouco importante que é como se não existisse, e tudo o que há de mau se trona numa colossal Golias que tentamos derrotar a cada dia. Sem sucesso. Inutilmente.
É esta luta que faz com que o todo o meu corpo se revolte no começo de cada dia. "Chega de lutar contra quem és! Aceita-te!...". É isto que o pequeno ente na minha consciência grita numa estridência muda ao meu ouvido. Mas o que eu oiço é "Desiste!". E disso, isso sim, não sou capaz. A batalha tem sido longa. Dura. Mas a cada pequeno avanço, a minha coragem aumenta, junto com a certeza de que, quem luta, recebe um dia a devida recompensa.
A batalha continua. Não terminou nem terminará tão cedo. E a mais sangrenta de todas elas está ainda por vir. Aproxima-se a passos largos. Tenho medo. O cansaço instala-se e teima em não desaparecer. Mas não desisto. Continuarei a lutar.
Há ainda uma luz de esperança que brilha e me alumia, mesmo quando tudo está imerso em escuridão.

História fictícia escrita por mim para a Fábrica de Histórias