domingo, 18 de outubro de 2009

Saturday Night Fever

O espectro do silêncio pairava sobre as três cabeças haviam já alguns minutos. Cada um perdido nos seus devaneios. Cada um à deriva nas correntes dos seus pensamentos. Por largos minutos o único ruído era do motor do carro em que seguiam, e os levava a alta velocidade a um qualquer destino comum de diversão.

***

Estou cansado… Queria tanto que ela me tivesse deixado em paz em casa esta noite, a ver um filme qualquer no cabo, deitado no sofá até dormir. Mas não, tínhamos que sair! Amarramo-nos a uma mulher, e perdemos a liberdade. Como tenho saudades de estar sozinho. Não acredito! A gaja que está atrás de mim está com o dedo enfiado no nariz… Ah ah ah ah ah ah!!! Não posso acreditar. Deve achar que como está escuro ninguém repara, mas esqueceu-se que pelo espelho retrovisor eu vejo-a!!! Ah ah ah ah ah!! Ricas amigas que a minha mulher arranjou. Há quanto tempo não vou beber uma imperial com os meus amigos… Janeiro, Fevereiro… Há quase um ano? Tenho que me impor, não pode ser assim. Estou a ficar um mole! Não tarda estou a transformar-me numa gaja também. Chega! A partir de amanhã isto acaba! Ou não me chamo João! …
***

Estamos atrasados. Fiquei de ligar à Ana as 22.30 e já são quase 23.00. Enfim, vamos sair, é para nos divertirmos e conversar um bocado, não é para andarmos stressados… Logo lá chegamos. Bolas, na 6ª feira não confirmei com quem era a reunião de 2ª feira. Tenho que ligar para a Marisa amanhã de mnhã, ela deve saber, é sempre tão organizada! Eu gostava de ser assim, mas por muito que me esforce não consigo. O João está sempre a picar-me o miolo com isso. Ele é tão arrumadinho e organizado que até chateia. Desde que casámos que nos fartamos de discutir por causa disso. Tens sempre tudo desarrumado. Nunca te lembras de nada. Nunca sabes onde pões as coisas!!! Será que não se apercebe de quão irritante é? E não percebe que, arrumado ou não, eu faço sempre tudo o que é preciso quando é preciso? Bem, ao menos quando conduzo não faço o que ele está a fazer agora! Olha para esta ultrapassagem!!!! Se fosse eu, já estava a gritar comigo. Mas hoje a minha amiga está aqui comigo, não me apetece chatear, há tanto tempo que não a vejo. Mas a Filipa está muito calada hoje, estará triste? Parece que anda meio deprimida! Tenho que falar com ela…
***

Mais uma saída. É suposto divertir-me, e sei que vou gostar de conversar com o pessoal. Mas amanhã de manhã acordo e vou estar deprimida, porque é Domingo e volto à mesma vidinha de sempre… Ao vai e vem sem outro propósito que não seja o ter dinheiro para passar os dias de vida que me restam rodeada pelas indispensáveis vacuidades materiais que me farão sentir tão insatisfeita como hoje, mas mais próxima do que é ser normal. Como eu gostava de não pensar. Abdicar do raciocínio crítico e viver sem pensar no significado de o fazer. Viver para o agora, não pensar no ontem nem no amanhã. Como invejo aquelas raparigas vazias, que ficam felizes com mais um par de sapatos e uma ida a uma festa qualquer. Ui, e esta comichão no nariz que não passa… Ainda bem que é de noite!!!...
***

- Sabes para onde viro agora?
- Não, pensei que sabias. Mas não reconheço esta rua, está escura, não tem placa de nome. Já cá viemos mais vezes e não me lembro nada de passar aqui. Já te perdeste outra vez? Que espanto…
- E tu não tinhas ficado de pedir indicações à tua amiga? Porque não ligaste? Deixa-me adivinhar: esqueceste-te!...
- Não, mas não tenho saldo no telemóvel.
- Para variar, não é?
- Toma Mariana, usa o meu…
- Já viste isto? Estamos atrasados, perde-se, e agora diz que a culpa é minha…
- Não tem problema. Até no escuro, num sítio desconhecido, podemos passar um bom bocado!!! E ainda faltam tantas horas até ao amanhecer...


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Gato

Meia dúzia de passinhos lentos por cima do sofá e um ágil salto para cima da mesa de jogo. Duas ou três cheiradelas e foi a vez da cadeira forrada a couro, antes do elegante regresso ao chão. Ah, como me sinto orgulhoso de manter o porte airoso, apesar da idade!...

Não reconheço este espaço. De familiar apenas este tão familiar humano, que ontem me agarrou e me trouxe para aqui.

Que confusão!... E que maçada...! Detesto sítios novos, sobretudo se fechados como esta casa. Os meus cantos familiares, os objectos habituais, tudo mudou.... Os rituais impossibilitados. As rotinas quebradas. Afinal de contas sou um animal de hábitos, e os meus pêlos brancos não abonam a favor da possibilidade de me adaptar a uma vida completamente nova.
Porquê isto agora?! Não entendo, depois de tanto tempo. Eu até gostava da outra casa, pequena mas acolhedora...
Mas está resolvido: esgueirar-me-ei por uma porta entreaberta, ou uma janela inadvertidamente mal fechada, logo que a primeira oportunidade surja.

De facto, a oportunidade já surgiu, esta manhã, quando o jornal bateu na soleira da porta, atirado por um qualquer irritante miúdo numa bicicleta, daqueles que adora passar as horas mortas a atar latas barulhentas ao rabo dos gatos vadios. Fred, descuidadmente, abriu a porta, pegou no jornal e, encostado à ombreira da porta ainda aberta, entreteve-se a ler os títulos da capa, enquanto acabava de fumar o seu cigarro. Como se não estivesse habituado às ariscas companhias felídeas. Mas já se passaram mais de três anos desde a altura em que tal facto deixou de ser verdade...

Qualquer coisa fez com que não aproveitasse essa oportunidade. Inexplicável... Esperança...?

À medida que Fred revolve os haveres ainda dentro da mala, um aroma a passado eleva-se pelos ares. Doce e suave, misturado com um fumo intenso e amargo. Perfume e tabaco. Tão familiar. Holly...

Já há tanto tempo que este odor se desvaneceu do antigo apartamento. Aos poucos passou ao passado. Nao é mais que uma memória antiga.

Pelo menos para mim, porque para Fred tudo ainda parece vivo. Intocado, como se o tempo e a vida não tivessem tomado um rumo indesejado. Até há bem pouco tempo acordava de noite gritando o nome dela, mesmo estando acompanhado de outras companheiras fugazes junto das quais procura o oblívio.

Para mim tudo ficou na mesma. Continuei a vaguear pelas prateleiras vazias e empoeiradas. Dormitava dentro do lava loiças revestido de uma desleixada camada de gordura. Aguardava que Fred se lembrasse de mim e me desse uma tigela de leite ou um qualquer resto da pouca comida que ingeria.

Custa-me admitir isto, mas a verdade é que também eu sinto a falta daquela que talvez tenha sido a minha mais honesta e leal companheira. A única que nunca pretendeu possuir-me como a qualquer objecto e que me chamava simplesmento "Gato". E a única a quem nunca ousei chamar "a minha humana". Por muito tempo fomos apenas dois seres que coabitavam. Que partilhávamos um mesmo espaço numa saudável parceria. Eu tolerava as barulhentas festas envoltas numa névoa daquele fumo asfixiante que os muitos humanos que ali se juntavam faziam, enquanto bebiam e falavam alto. A tais eventos assistia do topo do móvel da cozinha ou da prateleira mais alta que conseguia encontrar. Por seu turno ela alimentava-me, ignorando todas as vezes em que saltava para cima de um qualquer convidado que se atravessava no meu caminho, ou em que afiava as garras em qualquer sítio inconveniente.

Depois veio Fred, e vivemos os três no apartamento dela por bastante tempo. Entre Fred e Holly as demonstrações de afecto e os sorrisos eram frequentes. Estavam felizes. Pelo menos Fred estava, porque a sós, só eu partilhava das lágrimas de Holly. Lágrimas que nunca compreendi, mas às quais respondia roçando-me com ternura pelas suas pernas e deixando-a afagar o meu pelo amarelo de pequeno leão doméstico.

Até que houve um dia em que, do alto de uma prateleira, a vi sair. Com uma pequena mala pendurada no antebraço. Com o seu mais elegante vestido preto, lenço na cabeça e óculos escuros que escondiam as lágrimas que tentava, em vão, conter.

Foi a última vez que a vi. Por dias aguardei pacientemente, junto à porta. Mas ela não regressou... Quanto a Fred procurou-a incessantemente por mais de um ano. Viajou várias vezes, deixando-me ao cuidado do vizinho japonês. Mas de todas as vezes regressou sozinho.
Há uns dias atrás recebeu uma carta. Leu-a com sofreguidão e rasgou-a, gritando "Casada? Casada? Aquela vadia?". Enraivecido, partiu tudo o que encontrou. Garrafas vazias e cheias. Loiça. Cortinados rasgados. Por dias seguidos ficou fechado.
Até que ontem de manhã abriu as janelas de guilhotina e deixou entrar o ar. Fez a barba. Vestiu-se como antigamente, bem aprumado e fez um telefonema. Saiu. Horas depois regressou, calado, de expressão hermética mas determinada. Aos seus poucos haveres reuniu-os e colocou-os numa mala. Reparei que entre eles estavam também dois ou três dos objectos que Holly deixara para trás. Pegou em mim debaixo do braço - claro que tive que dar luta, como se aquilo fosse maneira de transportar um gato como eu...!!! Enfim, lutei em vão... - pegou na mala com a outra mão e saímos. Percorremos várias ruas da movimentada Nova Iorque, até entrarmos num táxi.
Não sei quanto tempo andámos naquela viagem infernal. Estava demasiadamente enjoado para perceber. Mas parámos já longe do rebuliço do trânsito e da citadina amálgama humana, junto de uma casa de um só piso, com um portão azul meio ferrugento cujo lamentoso chiar se ouviu a milhas de distância quando Fred o abriu para o cruzarmos. Tirou uma chave do bolso e girou-a na fechadura, empurrando a porta de madeira branca.
Deixou-me finalmente saltar para o chão. "Vais ver que te habituas..."
Mas não percebi se aquelas palavras eram para mim ou para si próprio...
Texto escrito por mim para a Fábrica de Histórias




segunda-feira, 11 de maio de 2009

Inesperada Filosofia

O mesmo autocarro. À mesma hora. A mesma meia hora. Todos os dias. Infindavelmente.

Àquela hora obscenamente matutina, a minha actividade cerebral, próxima do nada, não me permite debruçar sobre o quão assustadora é esta rotina que se arrasta até ao infinito. Aliás, não me permite pensar em nada. Por isso, limito-me a observar o que me rodeia nos minutos de viagem que ainda faltam, alternando entre os meus eternos companheiros de viagem e o filme que passa a alta velocidade na tela que é o vidro frio, ao qual encosto a cabeça, desejando que aquele embalo me devolva de volta ao sono que a tanto custo abandonei. Mas aos poucos, vou despertando.

Passo os olhos em redor, menos por curiosidade pelas pessoas que me rodeiam, do que para confirmar que todas elas estão sentadas nos seus lugares, como se houvesse uma ordem pelas quais devessem estar "arrumadas". Doce ilusão da previsibilidade do mundo...

O autocarro detém-se em mais uma paragem, e entra a mulher que se vai sentar dois bancos à minha frente, de frente para mim. Aparenta ter mais alguns anos que eu. Veste-se com esmero, tudo perfeitamente aprumado - demasiadamente!... - nem uma ponta do seu negro cabelo a esvoaçar. Bree Van de Kamp?!... "Em pessoa!", penso, reprimindo um revirar de olhos e um sorriso sarcástico.

Esta personangem desperta-me a atenção. Deixa-me a imaginar como será a sua vida para além daqueles vinte minutos de autocarro. O que faz, o que pensa, com quem fala... Mas não entendo o porquê desta curiosidade.

Imagino-a superficial, incapaz de fazer qualquer reflexão que ultrapasse o registo concreto de uma criança de 10 anos de idade. Imagino-a falando do jantar que preparou para as amigas na sua tão adorada - e excessivamente comentada - Bimby. A frequentar reuniões da paróquia e a pavonear-se com a "nata" social da nossa cidade de subúrbio. A falar enternecida das conquistas banais do seu patologicamente bem comportado filho. E sempre a brilhar, ao lado de um marido influente e bem colocado socialmente. O homem que a sua mãe escolheria (escolheu?!) para genro.
Desprezo-a. Ou à vida que fantasiei para ela. Mas a curiosidade que me prende o olhar naquela mulher por mais do que meio segundo permanece. Esperança ingénua de me surpreender?... Desejo arrogante de confirmar o que penso já saber?... Vou no embalo destes pensamentos até que a viagem termina, e todos eles se esvaecem da minha mente. O dia começa.
Um dia, após uma entediante manhã de trabalho, vou almoçar no shopping que fica uns quarteirões mais afastado do meu presídio laboral. Uma comemoração com colegas de qualquer coisa pouco importante.

Alguém sugere que passemos na livraria no primeiro andar, e lá nos arrastamos, numa anedónica excursão que vai errando molemente pelos corredores, ainda que com destino traçado.

Espalhamo-nos pelas alas da livraria, cada um pelas secções que mais nos interessam. Eu fico-me pela poesia. Não porque me interesse particularmente, mas apenas porque é a secção que fica mais perto da porta, o que me dá a oportunidade de observar quem vai passando por ali. Alterno espreitadelas indiscretas a quem passa, com as páginas desfolhadas de um ou outro livro cujo título me chama a atenção, lendo estrofes dispersas de poemas aleatórios.

"Começamos a vida primeiro com a poesia e depois pela realidade." disse uma voz feminina atrás de mim. Virei-me, em sobressalto, para encarar quem me interpelara. E eis que dou de caras com a mulher que mentalmente vou encaixando num episódio de Desperate Housewives durante aqueles 20 minutos diários. Quase fico de boca aberta. Nunca esperaria encontrá-la ali. E muito menos a citar Schoppenhauer.

Num fragmento de segundo verifico que veste a t-shirt encarnada que identifica os vendedores do estabelecimento. Olha-me com um sorriso simpático. Mas no seu olhar não vislumbro qualquer centelha de reconhecimento. Não sabe quem eu sou. Não me conhece como eu a conheço, do nosso partilhado périplo diário.

"Mas, segundo ele, era com a realidade que deveríamos começar, e não com a poesia, para evitar a infelicidade da juventude." - respondo, talvez de modo um pouco pedante, mas com orgulho por o elemento surpresa daquele contacto não me ter toldado o raciocínio.

"Sim e concordo com ele. Mas não quer dizer que uma dose de ilusão seja má. Ao menos ajuda-nos a sobreviver aos dias maus." Enquanto falava, a minha sorridente interlocutora pega num dos livros e começou a falar-me de um poema a este propósito: "Poema para Iludir a Vida". Fernando Namora.

Sem que eu tenha tempo de frasear a questão que me baila no espírito ("Então, mas se aceitarmos a vida como ela é não nos poupamos ao esforço da ilusão?!"), oiço o meu nome perto da porta. Hora de ir embora. Despeço-me com um sorriso vago à vendedora da livraria e saio. Ainda sem palavras. Ainda sem acreditar na mesma conversa com aquela personagem coabitaram Namora e Schoppenhauer.

No dia seguinte ela senta-se no mesmo banco no autocarro...


Texto escrito por mim para a Fábrica de Histórias

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Perdidos e achados

Pegou nas chaves e saiu. À procura de tudo ou de nada. Tentando mudar aquilo que sabia imutável. Procurando qualquer coisa, mas sem saber o quê…
Era já de noite, e estava frio, mas não se importou. Já que nada mudava nos seus dias, quem sabe a noite lhe trouxesse algo de novo. Entusiasmo. Alento. Esperança…
Foi calcorreando as ruas desertas, ao sabor do acaso, sem pensar. Como se fossem as suas pernas e não ele a decidir o destino final. Um autómato à mercê dos caprichos dos seus membros.
Àquela hora, a cidade parecia ter sido esvaziada de vida humana. Esta podia apenas adivinhar-se por breves sinais de quem por ali tinha passado: a beata de um cigarro que alguém não tivera tempo de fumar até ao fim; a folha de jornal que rodopiava pela calçada ao sabor do vento; o cheiro acre de urina humana num beco sem iluminação.
Mas ao passar, num passo vago, estava alheio a tudo isto.
Na sua mente, repetiam-se incessantemente as imagens daquela manhã. O cheiro doce que se esgueirou na sua direcção. O rosto alvo que encontrou ao procurar a origem daquela fragrância. A suavidade das mãos brancas que roçaram pelas suas ao entrar no elevador amontoado de gente. A voz grave e sensual com que lhe agradeceu, quando a ajudou a apanhar as folhas que deixara cair no chão.
Ele fizera pouco mais do que sorrir-lhe em resposta a este agradecimento. Queria ter falado. Queria ter dado a deixa que a faria ficar ali mais uns instantes, suspensa pelo seu sentido de humor, pela sua inteligência, pela sua sagacidade…
Mesmo depois dela ter virado costas e retomado o caminho para o trabalho, ele ficara parado, a olhá-la. A contemplar aquela musa matinal. Com milhões de palavras revolvendo-lhe o espírito, mas sem ser capaz de dar sentido a nenhuma delas. Sem conseguir formar uma frase que a detivesse. Até ela desaparecer.
Passadas já tantas horas sobre aquele momento, sentia ainda o amargo sabor da oportunidade perdida. Mais uma.
Embora não soubesse, já caminhava havia quase uma hora.
Ao longe avistou um vulto, que se tranformou numa silhueta e depois num homem que, ainda bastantes metros à sua frente, caminhava num passo ziguezagueante. Vinha na sua direcção, cambaleando. Bêbedo? Provavelmente.
Quando o homem já idoso estava já bem perto de si, estacou a olhá-lo, coçando com um dedo o oleoso cabelo, num trejeito pensativo. Como se nunca antes tivesse visto um ser humano. Um hálito forte confirmava as suas suspeitas.
- Que fazes aqui puto? - perguntou-lhe numa voz arrastada.
- Ando. Apenas. - retorquiu, com a voz sumida de quem não estava certo de que deveria estar a ter aquela conversa. Mas algo de tão inusitado era tão irresistível…
- A esta hora? Ah, isso são as gajas! Sabes, tens que as saber levar, senão já sabes: já eras!
- Já era?
- Sim, passas à História, partem para outra estás a ver? Não percebes nada de mulheres pois não?
- Talvez sim. Talvez não. Não sei.
- Ui, ui, ui!!! Já estou a ver tudo. Um homem da tua idade?! Ah, quando eu era novo, não havia nenhuma que me escapasse! Vem aqui falar com o Zé, que ensino-te uns truques. Mas primeiro pagas-me mais um copo, que de bocas secas não sai nada, só asneiras!!!
Aproximou-se do etilizado companheiro de jornada, revolvendo os bolsos das calças. Tinha ainda algumas moedas. O suficiente para fazer durar por algum tempo o combustível daquela conversa. O suficiente para lhe devolver a minúscula dose de esperança contida nas palavras de um homem ébrio.
Texto escrito por mim para a Fábrica de Histórias

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Dissonância

Olhava para o telefone como se fosse uma televisão. Estático, mal pestanejava.
Ao ausente espectador daquela cena, pareceria que se tratava do decrépito homem-estátua que, procurando mais uns cêntimos para matar a sobriedade, passava horas imóvel em ruas movimentadas, povoadas pela horda de consumidores compulsivos que diariamente procuravam os preços mais baixos de coisas de que não tinham falta nenhuma. Mas não. Estava em casa, sozinho, apenas olhando o telefone.
Se os circuitos eléctricos do seu cérebro lhe permitissem pensar um pouco para além do motivo daquela espera infinita, perguntar-se-ia há quantas horas ali estava, e saberia que já dois ocasos tinham passado, que o terceiro estava bem perto. Aperceber-se-ia de que nada comera e pouco dormira em todo aquele tempo de meditabunda quietude. Notaria as profundas sombras por baixo dos seus olhos. Notaria a barba que crescia insolente. Notaria os pêlos eriçados, arrepiados pelo frio daquele quarto semi-obscuro e gelado. Mas na sua mente nada mais existia para além do telefone, e do anseio receoso pelo momento em que ele tocaria.
Aquela natureza morta retratava uma espartana divisão, em que para além da cadeira de madeira de espaldar alto em que ele se encontrava e do telefone que, em frente dele, jazia no chão, havia apenas uma estante com meia dúzia de livros velhos despenteadamente distribuídos pelas prateleiras de madeira escura, uma pequena mesa redonda de madeira por envernizar, e umas grossas cortinas castanhas, que obscureciam o ambiente, fazendo com que aquele espaço se assemalhasse a uma caverna habitada por um velho e sanguinário ser lucífugo.
Na sua mente apenas havia o telefone, e a antecipação do seu toque. Sabia que o faria saltar da cadeira. Sabia que o ensurdeceria. Mas não desejava outra coisa. Não pensava em mais nada.
Estaria ela viva? E se estivesse, ligar-lhe-ia? E se não estivesse, avisá-lo-iam? E o que faria depois da chamada que aguardava? Correria para ela? Desprezá-la-ia? Choraria a sua morte? Comemorá-la-ia? Continuaria a viver?...
Não encontrava respostas dentro de si, mas continuava à espera, desejando ardentemente que pelo telefone elas chegassem. Que aquelas reticências entre parêntesis se desmoronassem, para que pudesse retomar a sua vida como se elas nunca lá estivessem estado. Para que pudesse voltar a inalar oxigénio, depois de ter sustido a respiração durante tanto tempo.
Um som estridente rasgou o silêncio como um raio rasga os céus plúmbeos da tempestade. A luz do visor do telefone iluminou a sua face.
O primeiro toque... Pareceu-lhe irreal, distante, como se proviesse de outra dimensão, de um outro planeta.
O segundo toque... Encheu-lhe os ouvidos, agrediu-lhe os tímpanos e ficou a ressoar na sua cabeça mesmo depois de ter terminado.
O terceiro toque... Fez todo o seu corpo vibrar.
Estendeu um braço devagar, inclinando-se ligeiramente na direcção do telefone, como se o membro fosse tão pesado que o forçasse a vergar-se para o sustentar. Parou a milímetros de alcançar o auscultador.
O quarto toque... Hesitou ainda.
O quinto toque... Tomado por algo que não sabia o que era, levantou-se, ignorando o protesto doloroso dos músculos, obrigados a mexer-se depois da tão prolongada imobilidade.
O sexto toque... Um passo, dois passos, três passos a caminho da porta da rua, sem olhar para trás. A mão que rodou a maçaneta e a abriu.
O sétimo toque... Ouviu-o já abafado, através da porta que fechara atrás de si, enquanto descia o primeiro patamar de escadas em direcção à rua.
O oitavo toque...

Já não o ouviu.