sábado, 18 de dezembro de 2010

Inesperadas insanidades

As beatas de cigarros mal fumados amontoam-se pelo passeio, fruto do longo tédio das prostitutas que, de quando em vez, me lançam olhares inquiridores, como que para tentar perceber se serei eu o próximo cliente. Mas eu passo, aparentemente alheio à sua presença. O meu destino é outro.
Caminho no passo incerto de quem, embora consciente do seu destino, não está seguro do rumo que toma, porque nunca percorrido. O que me move? Não sei que nome lhe chamar. Mas talvez uma centelha de luxúria que não quer morrer antes de chegar a ser, nem que seja por breves instantes, algo incandescente e intenso.
Uma miríade de imagens preenche a minha mente, quase me alienando da realidade que me envolve. A cara daquela que procuro, meio estremunhada e assustada por dar de caras comigo numa noite como aquela, provavelmente achando-me um stalker, e os ares receosos das restantes moradoras da residência universitária ao verem um homem bem mais velho que elas a deambular por ali. Mas, sobretudo, vejo-me como o herói de um daqueles filmes que apenas passam uma ou duas vezes em salas de cinema meio perdidas num qualquer recanto da cidade. Uma personagem capaz de cometer os actos mais inesperados apenas pela promessa de fugazes momentos de sensual inconsciência. É assim que me quero ver esta noite. É assim que quero que me vejam.
Alcanço a porta da morada que procuro e, olhando para cima constato, não sem um borbulhar incómodo no estômago, que para encontrar a rapariga que procuro terei que bater de porta em porta num edifício de quatro pisos, porque desconheço a localização exacta do quarto que ela habita. Ao menos não tenho que tocar à campainha, a porta está entreaberta, como num convite a viandantes como eu.
Vou andando por um corredor frio, ladeado por portas de madeira clara, sem qualquer espécie de identificação das suas ocupantes. A inevitabilidade de ter que bater a qualquer uma daquelas portas, tentando encontrar quem procuro, toma conta de mim. Claro que poderia desistir e voltar a sair... Não! Não me voltaria a respeitar se o fizesse!
Dirijo-me para uma porta ao acaso e bato três vezes. Depois de um "é só um momento", aparece uma rapariga loira, quase uma adolescente ainda, certamente sem ter ainda chegado aos 20 anos. Ao contrário do que seria de esperar, olha-me sem o mais pálido vestígio de surpresa, receio ou curiosidade, como se o facto de um desconhecido lhe bater à porta fosse algo de banal na sua vida. Articulo a questão que me levou ali, naquele meu ar despreocupado e casual que oculta todas as inseguranças que me bailam no espírito, como se nunca tivessem existido.
- Boa noite, ando à procura da Laura. Ela estuda na Faculdade de Letras e disse-me que morava nesta residência. Sabes onde a posso encontrar?
- Laura? - respondeu-me uma voz sonolenta, afastando da frente da cara uma longa madeixa de cabelo loiro, que deixava entrever um busto acolhedor - Não estou a ver quem é. Mas aqui neste piso não há nenhuma Laura.
- Ah, ok... Obrigado então. - E viro costas em direcção ao elevador, mesmo antes da rapariga fechar a porta.
Subo ao piso de cima e bato a mais duas portas. Numa delas ninguém me responde. Afinal é Sábado à noite, aquela hora em que é suposto jovens universitárias andarem pelos bares a tentar encontrar parceiros por entre copos de cerveja. Na seguinte alguém me aponta o caminho. O quarto 312, no terceiro piso. É para lá que me dirijo.
À medida que fui batendo de porta em porta, o meu estilo e modo de falar foi ficando cada vez mais confiante, talvez pontuado por um pouco de impertinência ou arrogância que, agora sim, me fazia sentir como um homem para lá dos 30 deambulando por uma residência de jovens universitárias. E eis que me encontro defronte da porta que me indicaram como sendo a de Laura. Abre-me a porta uma pessoa que não reconheço, em pijama e meio despenteada, a quem pergunto por Laura.
- Sim, chamo-a já. - responde-me, enquanto se vira para trás e, encostando a porta, lança um suave "é para ti" para dentro do quarto, de onde emana um cheiro a incenso barato da loja dos chineses.
Ouve-se o restolhar de folhas de papel, uma cadeira a arrastar e, finalmente, é Laura que aparece à porta. Como antes, é o seu ar sem surpresa que me surpreende. Como se ao fim de todos estes dias esperasse a minha presença, nunca premeditada. Como se, ao ter-me informado casualmente que era ali que mirava, na brevíssima conversa que tivéramos antes, nutrisse secretamente o desejo de que ali aparecesse.
- Olá. Deves achar estranho eu aparecer aqui a esta hora, mas lembrei-me que talvez pudessemos sair.
A resposta nem sequer foi hesitante.
- De facto não esperava que aqui viesse. Mas aceito o convite. Se esperar aí um bocadinho, eu mudo de roupa e podemos ir até um café que fica aqui perto.
- Sim, claro eu espero.
Respondendo-me com um breve sorriso, Laura entra no quarto e fecha a porta, enquanto eu observo o corredor, exactamente igual àqueles que percorri nos pisos inferiores.
Conhecera Laura três noites antes, no intervalo de uma sessão de cinema. Frequentemente lá páro, mais para observar as invulgares personagens que por ali passam do que pelos filmes, embora tenha sido naquela sala que assisti aos melhores filmes que já vi até hoje. Laura estava sentada dois assentos à minha esquerda e no intervalo meti conversa com ela, sobre um qualquer aspecto do filme, já nem me lembro bem. Palavra puxa palavra e, meia dúzia de minutos depois, que foi tanto quanto aquela conversa durou, já eu sabia que Laura estudava na Faculdade de Letras, num dos primeiros anos - isso adivinhava-se pelo ar juvenil - e morava numa residência universitária, visto que se encontrava bem longe de casa.
Não era uma rapariga particularmente bonita. Nem a sua conversa era particularmente estimulante. Parecia uma daquela raparigas que ingressara num curso de Letras por falta de competência para algo mais elaborado. Não obstante, qualquer coisa nela deixou uma marca em mim. Talvez o ar sem entusiasmo com que falou de si, como que plenamente consciente e aceitante da falta de interesse que gerava nos outros. Tal e qual aquilo que eu próprio sentia. À saída do cinema apenas nos despedimos com um breve aceno, sem palavras.
Mas dos dias que se seguiram, a ideia de fazer algo totalmente inusitado e procurar a rapariga não abandonou a minha mente. Sabia onde morava e onde estudava. Não seria difícil encontrá-la. Ao pensar nisto, sentia-me como um daqueles homens lúbricos que perseguem jovens Lolitas para satisfazer as suas sensuais fantasias. Embora não fosse esse o meu caso, a verdade é que secretamente agradava-me passar essa imagem de mim próprio. E foi assim que, movido por este rasgo de cinematográfica insanidade, acabei numa residência universitária feminina, numa noite chuvosa de Sábado.
Cerca de 10 minutos depois Laura aparece, vestindo uns jeans bem gastos e sobre eles o cano de umas botas de salto alto que lhe emprestavam um ar sensual. Um casco preto, impermeável e grosso, não deixava adivinhar as formas escondidas por debaixo dele. Avanço na direcção do elevador e ela segue-me, no passo seguro de quem caminha ao lado de um velho conhecido.
Seguimos para um café, na rua de trás, e ali permanecemos até que um empregado sorumbático faz questão de nos mandar embora sem uma palavra, começando a varrer o chão e a arrumar as mesas e as cadeiras à sua volta. Conversámos sobre banalidades, a vida na Universidade (à qual não sou alheio, embora afastado dela há algum tempo), as nossas cidades de origem, o meu trabalho... . Sobre tudo e sobre nada.
- Bem, parece que temos que ir embora - comentei perante a tentativa passivo-agressiva do empregado nos dizer que queria ir embora para casa - deixo-te na residência ou queres ir a outro lado?
- Está a chover, não está muito bom tempo para andar por aí. Mas a verdade é que não me apetece nada voltar. Ainda é cedo.
- Tenho meu carro estacionado ao pé da estação dos comboios. Podemos dar uma volta de carro por aí, até nos lembrarmos de alguma coisa.
- Sim, pode ser.
E assim fizemos. Ao percorrermos de carro as ruas mal iluminadas da parte velha da cidade, vou descobrindo uma Laura bem mais faladora e ansiosa por me agradar do que me tinha parecido à primeira vista. Tratando-me sempre por um reverencial "você", que não faço a mínima questão de eliminar, vai-me relatando os clássicos que leu, as suas personagens preferidas e as análises críticas dos autores com que se foi cruzando, opiniões que são evidentemente meras réplicas do discurso de um qualquer dos seus medíocres professores. Aquela conversa começa a entedira-me profundamente, mas o meu silêncio é interpretado como interesse. E a ladaínha continua.
Como já se adivinhava desde o início da noite, a conversa acaba no meu apartamento, do outro lado do rio. Atravessamos a ponte, os subúrbios desérticos, e lá vamos nós escada acima, para a inevitabilidade da consumação do mais que expectável.
Depois de uma ou duas horas à conversa no sofá, em que o espaço entre nós se vai gradualmente reduzindo por movimentos nada casuais, surge o primeiro toque, o primeiro roçar de pele, que termina no ávido consumir de dois corpos que há muito anseiam o saciar daquela necessidade premente.
Envolto já numa mole languidez, com a pele macia e fresca de Laura encostada à minha, é ela quem resolve a minha dúvida sobre como dar fim a esta noite.
- Está a fazer-se tarde e amanhã tenho que me levantar cedo porque os meus pais vêm visitar-me. Importa-se de me deixar na residência?
- Claro que não! - respondi. començando a levantar-me para procurar as minhas roupas por entre as peças espalhadas no chão. Momentos depois ela segue-me e faz o mesmo.
Menos de três quartos de hora depois paramos à porta da residência, onde Laura se despede de mim com um sorriso e um breve beijo.
- Obrigada pela boleia. E pela noite.
- Sim. - respondo - Não há de quê.
E Laura vira costas e sai do carro, entrando pela porta do edifício sem nunca olhar para trás.
***
Regressado a casa, uma mensagem no meu telemóvel: "Quando quiser...".
Enigmático. Convidativo. Mas não... provavelmente não vou querer!


sábado, 13 de novembro de 2010

Pedra

Os fiapos de eternidade passam por mim como se de meros grãos de pó se tratassem. Dias e noites, sol e lua, frio e calor. Sucessão incessante. Meros instantes, quase imperceptíveis perante a imortalidade do meu não-ser.
O mundo em torno de mim transfigura-se a um ritmo lento. Plantas pingando orvalho sobre mim, à hora em que o sol é apenas uma miragem adivinhada num horizonte que não vislumbro. Chão arenoso que me cobre de pequenas partículas, fazendo crescer a inerte massa que é o meu corpo, a um ritmo tão lento que ninguém se apercebe, apenas eu. Alcatrão duro, onde carros e uma multidão de homens que entretanto ocuparam o planeta me pisam e me empurram por longas distâncias, fazendo-me percorrer o seu mundo. Ondas poderosas, que no seu vai e vem me vão dolorosamente reduzindo a partículas cada vez mais pequenas, até que a imortalidade cesse sem que nenhum rastro de mim perdure na memória de nada.
É este o destino que sabemos ser o nosso. É esta a história que silenciosamente contamos entre nós, quando fortuitamente nossos corpos se encontram num agudo entrechocar. Mas estou ainda longe da finitude. Não há mar que me desgaste nem vento ou chuva que me possa quebrar nos tempos mais próximos. O meu corpo mineral é ainda suficientemente grande para durar mais meia eternidade.
Na beira da estrada em que me encontro, volta e meia viajo pelo gesto de algum ser que por aqui passa. Um cão que me transporta nas suas mandíbulas húmidas, talvez desejando que eu fosse um osso suculento. Um grupo de rapazes que, deambulado livremente pelas ruas da cidade, se entretêm a competir entre si sobre quem, com um pontapé, me lança mais longe. Um automóvel que, pela pressão dos seus pneus, me projecta para longe, estonteantemente.
E assim vou percorrendo um mundo que sempre foi o meu, mas que não me pertence. Um mundo que mal dá pela minha presença e das outras como eu, apesar de sermos tantas e estarmos por toda a parte. Um mundo que gira eternamente, como eu, eternamente, contemplo as estrelas na infinidade do céu...

domingo, 31 de outubro de 2010

A rapariga que sorria para os sonhos

O mar refulgia em tons de doirado à medida que o sol se punha no horizonte. O céu parecia ter sido salpicado por uma explosão de arco-íris. Desde o amarelo dourado a tons rubros e púrpura, pinceladas de cor adornavam a abóbada celeste.
Todos os dias, da torre mais alta da fortaleza, Júlia contemplava este espectáculo, extasiada, como se Deus o tivesse organizado só para dar um pouco de alegria ao seu dia.

Levara o seu dia como todos os outros. Percorrera o castelo de alto a baixo de panos e esfregona e vassoura nas mãos, deixando a brilhar cada milímetro de cada espaço por que passava, mesmo sabendo que todo o seu trabalho seria inútil, pois a velha duquesa sua patroa parecia encontrar sujidade em sítios impossíveis.

Haviam quase vinte anos que, diariamente, com o seu suor fazia brilhar cada lage, cada adorno retorcido do mobiliário secular, cada cristal das dezenas de lustres espalhados pelas divisões. E todos os dias a duquesa tecia duros comentários à rapariga que tanto de sai dava para lhe agradar. Todos os dias calçava as suas luvas brancas e percorria o castelo passando com o dedo aqui e ali e, a cada inspecção, torcia o aquilino nariz num trejeito de desaprovação. “És uma inútil, não fazes nada de jeito!”, “Devia fazer-te comer no chão, para ver se o passas a limpar melhor!”, “Dizes que limpaste o pó destes móveis hoje? És uma mentirosa, há semanas que isto não é limpo!”. A cada inspecção, obrigava a rapariga a fazer todo o trabalho novamente. E se no final da segunda limpeza Júlia não conseguisse uma fungadela apreciativa (nunca um elogio, apenas um trejeito que denunciava um pouco menos de desaprovação) vinha o castigo: em vez de dormir no seu quarto, era obrigada a dormir na estrebaria, junto dos cavalos, sem jantar.

Júlia nascera já naquele castelo, filha de uma cozinheira que, dizia-se, se apaixonara pelo Duque, paixão essa que resultara no nascimento da rapariga. Ambos haviam morrido. Como tal, Júlia tivera que depender da boa vontade dos outros serviçais e da duquesa para permanecer no castelo e não ser enviada para a cidade no continente onde, sozinha, não teria meio de subsistência. Mas, sabendo disto, e secretamente odiando-a por julgá-la fruto da traição do marido, a duquesa fazia questão de tornar todos os dias da sua existência num pesadelo.

Talvez por esta vida agreste, Júlia fosse conhecida por nunca revelar um sorriso. Nunca os seus brancos dentes se haviam revelado. Nunca um trejeito de alegria havia cruzado o seu rosto. Jamais os músculos da sua face se haviam coordenado para que os seus lábios deixasse de ser o U invertido que todos conheciam.

Os únicos momentos de paz vivia-os Júlia ao final do dia, sempre que se conseguia esgueirar para a torre mais alta do castelo, e dali contemplar o mar, o continente que se avistava para lá dele e, do lado oposto, magníficos ocasos. O bulício das pessoas pequeninas lá em baixo davam-lhe a perfeita noção da inutilidade da sua vida, dependente dos caprichos de uma velha despeitada e amarga, presa a um passado que ninguém sabia se de facto existira. Mas esse sentimento de inutilidade, em lugar de a entristecer ainda mais, alimentava a cada dia o seu maior sonho: conseguir dinheiro para fugir do castelo, embarcar num navio para o continente e finalmente alcançar a liberdade. Enquanto não o conseguia, tinha que tentar trabalhar o melhor que conseguia.

Nessa noite, tendo mais uma vez sido posta de castigo, dormiu aninhada na palha na estrebaria, aquecida pelo calor dos animais que, conhecendo-a, a deixavam dormir perto de si. E foi com o pensamento no continente e na vida que teria quando lá chegasse que adormeceu. Foi esta nova vida que povoou os seus sonhos durante toda a noite.

Quem entrasse no estábulo naquele momento sentir-se-ia sem dúvida estarrecido com o brilho que o envolvia. Quem, pé ante pé, tentasse perseguir a sua origem aproximar-se-ia do canto mais recôndito do estábulo, local onde aquela refulgência de prata era mais intensa, quase cegando. Quem persistisse nesta demanda testemunharia um milagre: um delicado sorriso de um brilho sem igual que iluminava a face de Júlia adormecida, sonhando com a vida que nunca tivera, mas sabia que um dia ia alcançar.
História fictícia criada por mim para a Fábrica de Histórias

domingo, 24 de outubro de 2010

Espaço

Sem saber ainda para onde ia, vesti as minhas quase seculares calças de ganga, testemunhas de tantos outros momentos iguais, uma camisola qualquer e os ténis mais confortáveis que encontrei. Noutra ocasião, ter-me-ia preocupado em verificar se as cores combinavam, em colocar uns brincos e adornar o rosto com fiapos de cor. Mas não naquele dia. A necessidade de me expor àquele inesperado sol de inverno gritava imperiosa dentro de mim, tornando insignificante qualquer vaidade que pudesse emergir naquele momento. Saí e enfiei-me dentro do carro, cortando curvas e ignorando sinais vermelhos até chegar à praia que, sem eu me ter dado conta, sempre fora o destino marcado no meu inconsciente para aquele dia de mornas delícias.


Caminhei ao longo da praia, segurando os ténis nas mãos. Sentindo a espuma fria lambendo-me os pés, parecia ter entrado noutra dimensão. Parecia ter deixado o mundo em que habitava todos os dias e ter aterrado num planeta em que apenas a paz existia. Nada me perturbava. Nada de mau existia.

Num recanto da minha mente sabia que outras pessoas passeavam espaçadamente por ali, tal como eu. Mas estava demasiadamente extasiada para que a minha consciência recaísse sobre elas. Apenas existia eu e a natureza ao meu redor.


Era destes momentos, por breves que fossem, que eu extraía energia para voltar a enfrentar os dias de bulício e irritações. Recarregava forças e alvejava o espírito para regressar ao meu mundo como uma nova mulher, capaz de tudo.


Já o fizera antes e já fazia parte de mim. Simplesmente desaparecia do mundo e lá ia eu, ser apenas eu. Deixar de ser mãe, esposa, trabalhadora e ser apenas EU. O ser com o qual apenas eu convivia incessantemente haviam 35 anos.

Precisava daquilo. De estar sozinha, pensar na vida sendo eu a única variável. Libertar-me de todas as cargas que se iam acumulando em cima dos meus ombros. Dos ruídos que ensurdeciam o meu espírito até eu não conseguir ouvir-me.
***
- Onde estiveste?
- Por aí. Precisava de estar sozinha.
- E deixas-me a mim e aos teus filhos sem sequer dizeres onde foste? Sem sabermos se está tudo bem? Significamos assim tão pouco para ti?
- Não. Mas precisava muito de estar sozinha. De me encontrar.
- De te encontrares? A vida que temos aqui, a nossa família, não te faz feliz?
- Não é nada disso. Mas precisava de estar só comigo mesma. Pensar na minha vida, na nossa vida, sem televisões aos berros, crianças a correr, telefones a tocar. Não compreendes? Às vezes temos que estar sozinhos.
- Não, não compreendo. Só vejo que ao agires assim mais parece que não gostas de nós. Que estás infeliz e precisas muito de te livrares de nós. De mim. Isso não é amor. Isso é egoísmo, sabes disso!!!
- Não, não é egoísmo. E o facto de querer estar sozinha nada diz acerca do que sinto pelo meu marido e pelos meus filhos. Apenas diz que eu sou uma pessoa que tem necessidades e que uma delas é, às vezes, estar sozinha!
- Não é o que parece. A última vez que estive casado com alguém e comecei a precisar de estar sozinho, divorciei-me. Estava infeliz e não podia suportar a companhia da minha mulher. Sabes disso, já te contei a história.
- Mas eu não sou tu. Posso amar alguém, estar feliz com alguém e ainda assim precisar de estar sozinha. É assim tão difícil de compreender? É assim tão difícil de perceber que antes de ser tua mulher, mãe dos nossos dois meninos, era já uma pessoa e que continuo a sê-lo?
- A minha mãe sempre disse que um casal feliz é um casal que faz tudo em conjunto. Um casal que não se separa em nenhuma ocasião.
- Talvez por isso ela tivesse sido tão infeliz...?
***
Não me parece que volte a casar-me. Estou cansada de não ser eu para agradar a outro. Mas só o volto a fazer se houver espaço. Para respirar...
História fictícia escrita por mim para a Fábrica de Histórias.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Sarita...

Quando se sai de casa todas as noites, sabendo de antemão o que se irá passar, o normal é que a monotonia se instale. Já nem é necessário um esforço de imaginação para saber por onde se passará, que candeeiro servirá de testemunha aos eventos da noite, que pessoas se cumprimentarão com um breve olá ou um ligeiro aceno de cabeça, quem, depois de uma boa dose de álcool, se dirigirá a nós esfusiantemente, apesar de sermos apenas um rosto vago no meio de uma multidão. Para qualquer pessoa esta rotina imutável seria monótona e desgastante. Mas não para Sarita.

Sarita era o protótipo da mulher perfeita, fruto de uma infância vivida à sombra de pais exigentes e rigorosos. Pais que impunham regras, e que não lhe deixavam opção senão cumpri-las escrupulosamente. Como uma boa menina o faria. Como a boa menina que era. Desde que havia registo, jamais fizera algo que transgredisse os rectos ditames da autoridade parental. E era orgulhada e admirada por isso.

Desde miúda habituara-se à sua casa, ao seu quarto, como sendo o cantinho protector em que ninguém lhe faria mal. O único espaço no planeta a que podia chamar de seu. E era real esta percepção, porque excepto para limpezas ocasionais, nem os seus pais entravam nele sem a devida autorização. Cediam-lhe o domínio daquele espaço, como que para a compensar pelo domínio apertado exercido sobre si.

Crescera e nada mudara. O isolamento da infância e da adolescência e os comportamentos e pensamentos peculiares fruto de tanta solidão, rapidamente escavaram um fosso entre si e os colegas da sua idade. Sarita falava uma linguagem que não era a deles, dizia coisas que ninguém entendia (talvez porque imbuída de conhecimentos mais avançados, adquiridos por muitas horas de leituras solitárias), tinha ideias que lhes eram incompreensíveis. Não tardou a ser olhada como um ser estranho e a ser excluída e ridicularizada como tal. O que reforçava ainda mais o isolamento e solidão.

A frustração e o ódio pelo modo como era diariamente tratada pelos colegas foram gradualmente lançando raízes de aço dentro de si. Foram crescendo, fermentando, até que Sarita passou a odiar todas as pessoas que conhecia. Lia livros, via filmes e, olhando em redor, verificava que ninguém a tratava como àquelas princesinhas de contos de fadas, ou como às heroínas dos contos juvenis. Toda a gente a restringia, de um ou de outro modo. Ninguém mostrava o seu apreço por aquilo que ela era. Tirando os elogios vazios por parte dos professores, que no fundo eram mais expressões de auto-apreciação pelo seu próprio desempenho como professores do que um reconhecimento pela inteligência e esforço da rapariga, não sabia o que eram palavras de apreço, de carinho, de amor. E esse vazio ia crescendo de mão dada com um profundo ódio pelas pessoas. Um ódio incomensurável.

À medida que ia crescendo, pensamentos de vingança começavam a tomar forma. Quanto mais as palavras sarcásticas dos colegas cresciam nos seus ouvidos, mais vontade tinha de os fazer engoli-las até à última vírgula. Mesmo quando o liceu já terminara, e essas palavras existiam apenas e só no turbilhão da sua mente cada vez mais tortuosa.

Sarita deixou de estudar, e logo que pode foi trabalhar para um jardim infantil, como contínua. Sempre se dera bem com crianças. “Elas não me julgam nem troçam de mim”. Cedo percebeu que o salário que ganhava lhe permitia abandonar o ninho da sua existência, e criar o seu próprio planeta pessoal num apartamento alugado. E assim o fez. Mas nada mudou dentro de si. Aliás, talvez tenha mudado. A necessidade de mostrar que era superior a todos os que no passado a haviam humilhado recrudesceu. As ideias de vingança avolumaram-se e tomaram forma. E passaram a acção.

Reviu na sua mente os rostos de todos os colegas que tinham troçado de si. Estavam dispersos, ao sabor do rumo que as vidas tinham tomado. Mas a pouco e pouco conseguiu saber notícias de cada um deles. A pouco e pouco, o ar dócil e recatado que sempre tivera renderam-lhe a confiança de quem abordava. E com essa expressão cândida e inocente foi sabendo em que cidade estava cada um dos seus ex-colegas, onde trabalhavam, onde moravam, se estavam casados ou não… e tudo anotava metodicamente no seu caderninho. Chegara mesmo a seguir durante uma semana dois dos que moravam mais próximo de si. Conhecia-lhes os hábitos, os rituais, os horários, os amigos, os sítios mais frequentados.

Daí até ao passo seguinte foi apenas a distância de um pensamento. Pegou na faca com que o seu pai um dia lhe cortara as longas tranças como castigo, no único dia em que se atrasara dez minutos ao chegar da escola. Calçou luvas e vestiu uma roupa velha de que pudesse desfazer-se depois. Depois foi apenas sair em mais uma noite, apanhar cada um deles num sítio estratégico, escuro e isolado, e castigá-los pelos anos e anos de sofrimento. Acabar com as suas vidas, do mesmo modo como haviam acabado com a sua.

Ali, em mais uma noite, sabia o que se ia passar, planeara tudo como das outras vezes. No bolso apertava o cabo da longa faca. Respirava tranquilamente, como se nada se fosse passar a seguir. Em lugar da monotonia que poderia sentir por estar a repetir uma rotina tão fixamente, sentia-se viva, como poucas vezes se conseguia sentir. Quase alegre, por saber que a justiça se faria uma vez mais.

A próxima vítima surgiu na ponta da rua. Um olhar de estranheza perpassou-lhe pelo rosto ao reconhecê-la, ao que Sarita respondeu com o mais cândido dos sorrisos, ao mesmo tempo que sorrateiramente tirava a faca do bolso e a escondia atrás das costas. Aproximou-se da perplexa mulher, que perseguia haviam já umas semanas, para cumprimentá-la (fosse qual fosse a situação, a cortesia está acima de tudo, tal como os pais lhe haviam ensinado desde garota), fazendo deslizar a faca para o lado do seu corpo…

Ao fundo da rua, espectros azuis começaram a bailar de um modo cada vez mais intenso pelas paredes sombrias dos prédios. Uma sirene rasgou o silêncio da noite fria...

domingo, 4 de abril de 2010

Uma flor ao pôr-do-sol

Lentamente, dobrou o joelho, e a mão esticada aproximou-se daquela quase inesperada descoberta. Pegou-lhe, acariciou uma das pétalas e levou-a ao rosto, apreciando o seu aroma. Doce. Suave. Desconhecido. Até à semana anterior, nunca tinha visto semelhante flor. Tal facto não era estranho, até porque não era muito versada na botânica, mas era filha de uma apaixonada por jardinagem, pelo que não era totalmente ignorante no assunto. Estranho era o facto de, desde a semana passada, sempre à hora do pôr-do-sol, uma daquelas flores aparecer no parapeito da sua janela entreaberta, através da qual passava tantas horas a contemplar o mar. E mais estranho ainda porque estava sozinha, e não havia maneira de outra pessoa a colocar ali…

Em redor de um núcleo flamejante, harmonicamente distribuíam-se oito delicadas pétalas amarelas que ao toque pareciam feitas da mais fina das sedas. Tinha quase medo de manuseá-las, como se receasse que se desintegrassem. Pensando sobre isso, achava-se idiota. Qual era o mal que a flor se desintegrasse? Era apenas uma flor. Mas no seu âmago, algo lhe dizia que aquele pequeno ser encerrava qualquer coisa de misterioso. De importante. Que deveria cuidar como se fosse uma parte de si.

Aquelas pequenas descobertas ao pôr-do-sol, já não inesperadas mas quase ansiadas, eram o único momento em todo o seu dia em que a dor amainava. Em que quase conseguia esquecer-se do desespero que cortava o seu ser como uma faca afiada. Dilacerando-a.

Ana tinha sido casada durante quinze anos. Afortunadamente, pensava, conhecera o seu príncipe encantado ainda com dezasseis anos de idade e casou-se com ele após cinco anos de um namoro perturbado pelos obstáculos colocados pelos pais ultraconservadores de ambos. Depois de muitos entraves e proibições que mais nada fizeram do que aumentar a criatividade e os recursos de ambos, acabaram por fugir e casar-se em segredo, como nas mais belas histórias de amor que Ana tão entusiasticamente lia. E passaram quinze anos felizes ao lado um do outro, apesar dos altos e baixos que dão cor a qualquer relação entre um homem e uma mulher. Até à semana anterior.

Ricardo saíra para trabalhar, como habitualmente, num dia em que sabia que teria que fazer serão, até que a edição da revista mensal em que trabalhava fosse terminada e enviada para publicação. Como sempre que assim acontecia, essa era a noite que Ana reservava para si própria, entregando-se aos seus rituais de bem-estar. Um longo banho de imersão com água bem quente. Um copo de vinho tinto, contemplando o mar pela janela do quarto,e o sol a esconder-se para além do purpúreo horizonte. Um jantar despreocupado enroscada no sofá, ao som de uma boa música ou vendo um bom filme. E ir para a cama, sozinha, aguardando adormecida o momento em que Ricardo chegaria e entrelaçaria o seu corpo no dela, adormecendo tranquilo dois ou três segundos depois.

Naquela noite o seu ritual foi cumprido. Mas de madrugada foi acordada pelo estridente retinir do telefone. Ainda meio envolta pelo véu translúcido do sono, atendeu, e enquanto ouvia as palavras “Ricardo”, “acidente” e “hospital”, não conseguia decidir se estava realmente acordada, ou se aquilo fazia parte de um sonho mau. Retomada plenamente a consciência, levantou-se a correr e conduziu o mais depressa para o hospital, apenas para receber a notícia que nunca esperara ouvir. O seu marido não resistira aos danos provocados pelo embate contra um camião. Morrera. E o seu mundo com ele.

Não parecia possível que a vida pudesse continuar como era antes. Parecia impossível que o sol continuasse a despontar todas a madrugadas. Que a chuva continuasse a cair. Que as plantas continuassem a crescer. Tudo isto quando a sua vida estava tão completamente destroçada, quebrada em cacos tão pequenos que nada poderia juntá-los numa distorcida imitação do que já fora.

No dia seguinte, depois do funeral, regressou a casa e deitou-se, disposta a morrer ali, naquela cama que de um momento para o outro se tornara tão grande e tão gelada. Mas o sono tardara em chegar. Parecia impossível dormir, comer, respirar… Nada disso fazia já sentido.

Quando o sol baixava já no horizonte, levantou-se e vagueou pela casa vazia e em silêncio. Descobriu que a irmã lhe deixara comida feita, apesar de Ana ter recusado a sua companhia ou o convite para que fosse uns dias para sua casa. Adorável Margarida…

Percorrendo a casa, com a mão tocava nas coisas que Ricardo tocara apenas dois dias antes, sentia os seus aromas que ainda pairavam pelo ar, acariciava os objectos do marido, como se por magia eles o pudessem trazer de volta. Regressou ao quarto e, mais pelo automatismo do gesto do que pela vontade de o fazer, parou à janela a contemplar o ocaso. Tão absorta estava no seu espírito vazio, que nem reparou que a janela estava entreaberta, embora antes não o estivesse. E entre as portadas, uma flor de pétalas amarelas.

A noite pareceu interminável, mas finalmente adormeceu. No dia seguinte, teve a companhia de uma amiga durante a manhã, mas depois de um frugal almoço, conseguiu finalmente ficar sozinha. Não que não gostasse da companhia, mas partilhar o espaço daquela casa com outra pessoa fazia-a sentir-se a sufocar. Mais uma vez contemplou o pôr-do-sol pela janela do quarto. E mais uma vez uma flor amarela aguardava por ela. E desta vez não lhe passou despercebida. Tal como só naquele momento se deu conta de que outra flor igual estivera naquele sítio no dia anterior, embora já não a tivesse encontrado quando à noite fechou a janela.

Não percebia como era possível aquela flor estar ali. A sua amiga não lhe trouxera flores – aliás, num momento daqueles seria até de mau gosto – e a janela era alta demais para que alguém ali a pudesse ter deixado. Talvez tivesse voado de outro sítio para ali e entrado pela janela. Mas dois dias de seguida?... A dúvida permaneceu, mas não se dedicou a ela mais tempo, porque a dor não lhe permitiu mais do que uns segundos de distracção.

Passaram-se dois, três dias. Uma semana. E todos os dias a mesma flor ao pôr-do-sol. Estava a tornar-se impossível ignorar aquilo. Como é que aparecia tal flor todos os dias no mesmo sítio? Uma flor que desconhecia. Que pura e simplesmente não podia ali estar. Aparecia do nada, e assim que anoitecia, desaparecia sem deixar rasto.

Começava a duvidar da sua sanidade. Tanto mais que as únicas explicações “plausíveis” que lhe surgiam à mente iam beber a todos os fenómenos sobrenaturais cuja existência sempre repudiara de modo tão veemente. O próprio facto de por estas hipóteses como explicação a faziam recear estar a enlouquecer. Mas de que outra modo aquelas flores podiam estar a aparecer ali, senão levadas por uma entidade sobrenatural, um espírito ou coisa assim…?

A resposta a estas questões surgiu-lhe uma noite, num dos muitos sonhos em que se encontrava com o marido. Nele, Ricardo aparecia ao longe, vestido com uns jeans e uma camisola de pólo branca e trazia algo na mão que, ao longe não consegui distinguir. Mas quando ele se aproximou o suficiente, reconheceu a tão desconcertante flor amarela, cujo aroma inundou o ar. Em silêncio, Ricardo sorriu docemente, beijou a flor e poisou-a no parapeito da janela que entretanto se materializara ao seu lado. Feito isto, virou costas e afastou-se devagar. Ana chamou-o. E acordou com o som da sua própria voz a chamá-lo.

Levantou-se da cama e foi até à janela. Nada encontrou lá. Apenas um sonho. Mas dentro de si crescia a vontade de que o que aquele sonho sugeria fosse verdade.
Improvável. Loucura. Nada daquilo podia ser real.
A solidão estava a torná-la em mais uma daquelas mulherzinhas que acreditavam nas tretas que lhes vendiam como verdade, apenas porque eram as verdades que queriam ouvir. Mas a cada dia se preocupava menos com isso. Porque em cada pôr-do-sol, acariciando as pétalas de uma singela flor, se sentia um pouquinho mais perto de quem amava. Um pouco menos só.
Mesmo que não fosse mais do que mera ilusão. Ou mero delírio.
História escrita por mim para a Fábrica de Histórias

domingo, 21 de março de 2010

Alguém ajuda os que ajudam?

“Please don’t let me be misunderstood”. Eram um mantra a ressoar na minha mente, aquelas palavras que a voz quase andrógina que Nina Simone cantava. Não, eu não queria ser incompreendida. Queria que ele entendesse o porquê de eu estar ali, àquela hora. Vi a secretária dele sair, e subi. Girei o puxador da porta. Estava aberta. Aquela música preenchia o ambiente. Os meus olhos demoraram ainda a habituar-se ao manto de penumbra que envolvia a sala. Até que percebi que, como eu queria, ele estava ali. Mas não como eu esperava.

Com a cabeça pendendo sobre o queixo, parecia adormecido. Mas não certamente um sono natural. Uma banda, talvez feita de borracha, apertava ainda um braço mole e meio arroxeado. Em cima da mesa uma seringa e mais dois ou três objectos que não deixavam dúvida sobre o que ali se tinha passado, e sobre a natureza daquele vespertino sono do meu terapeuta. Heroína.

Com uma aguda sensação de que não devia estar ali, comecei a recuar. Dei dois ou três passos, mas com a atrapalhação, acabei por encalhar num candeeiro que caiu ao chão, com um estardalhaço que me fez encolher e olhar novamente para ele, receando que tivesse acordado. E de facto, levantou a cabeça, e entreabriu os olhos meio enevoados. Franziu o sobrolho ao cruzar o olhar com o meu. Mas olhou-me sem me ver. E a cabeça voltou a descair lentamente sobre um ombro, enquanto adormecia novamente. Não perdi tempo. Voltei-me e saí do gabinete a correr. Apavorada. Aturdida. Não sabia o que pensar. Ele não era quem eu julgava que fosse.

Mas porquê? Como? O homem que me ajudara a encontrar um equilíbrio na vida. A quem eu devia todas a minhas mais recentes conquistas. Ali, prostrado. Um cadáver ainda por morrer.

Na verdade, não fora o lugar em que o vi, nem o teria reconhecido. O cabelo desgrenhado. A barba por fazer. O rosto emaciado e sem expressão. Enormes olheiras escuras. Parecia mil anos mais velho do que os pouco mais de quarenta que aparentava habitualmente. Já o conhecia haviam quase dois anos. Conhecia?!...

Iniciei a terapia depois de ter sido diagnosticada uma doença grave ao meu namorado. Foi a gota de água que virou o meu mundo do avesso. Um mundo que já navegava em águas revoltas. Com um emprego que em nada me preenchia e com uma família que pouco mais fazia do que criar-me problemas, perder a minha única tábua de salvação parecia mais do que eu conseguiria tolerar. E a depressão não tardou.

A conselho de uma amiga, procurei-o. E meia dúzia de sessões mais tarde, já eu começava a ver a luz ao fundo do túnel. Por vezes, naquelas sessões, o doutor pouco falava. Eu costumava perguntar-me porque é que eu lhe estava a pagar, se na maior parte do tempo parecia que eu estava ali abandonada comigo própria. Mas algumas semanas mais tarde, já eu começava a vislumbrar uma ou duas centelhas de força para me ajudar a resistir. E a tentar mudar. Ao longo dos meses aquela hora semanal começou a tornar-se o meu refúgio. Um santuário. E grão a grão fui-me reconstruindo.

Aos poucos comecei a aperceber-me que não eram apenas as consultas que eu aguardava com impaciência durante uma semana. Era a possibilidade de estar com ele. O homem que me fez ver o mundo com outros olhos. Passava toda uma semana a pensar nele, a sonhar com ele e a ansiar o momento que o veria novamente. Pena serem uns tão curtos cinquenta minutos. Dava-me (bem, ainda dou!) mesmo ao trabalho de me vestir o mais sensualmente possível, dentro do que a descrição permite. E ele chegou mesmo a reparar nisso, tecendo um qualquer comentário sobre a minha nova forma de vestir.

Um dia não me contive. Tive que lhe falar do que sentia por ele. Era já forte demais para ignorar. Mas a resposta foi uma desilusão. Transferência e contra-transferência. Falou como se todas as suas pacientes se apaixonassem loucamente por si, e eu fosse apenas mais uma. Insignificante.
Tinha que voltar a falar com ele, para que percebesse que não sou igual às outras. Que o amo realmente. Por isso quis falar com ele hoje. Mas depois do que vi já nem sei o que pensar.

O meu terapeuta viciado em heroína? Como é que é possível? Um homem tão ponderado, tão centrado, quase um sábio… Ali prostrado. Decadente. Destruído. Será que não foi capaz de se livrar do sofrimento dos outros? Que fantasmas o assombram? Que dor encerra em si?

Não sei o que fazer. Nem sei se ele percebeu que eu estive ali. Mas ver o homem por detrás do terapeuta aguçou-me a vontade de o conhecer. Acicatou a minha curiosidade. Tenho que pensar numa maneira de chegar até ele. Aproximar-me.
Um dia destes…
Amanhã, talvez…
História escrita por mim para a Fábrica de Histórias