terça-feira, 25 de setembro de 2012

14º Campeonato de Escrita Criativa - Desafio #5


Pensei que tinha visto um caixote. Enquanto passava naquele passo em que o andar e o correr se misturam, já a noite se instalara e as estrelas espreitavam por entre os telhados dos velhos prédios da baixa.
Pensei que tinha visto um caixote. Um enorme caixote de cartão encostado à ombreira da porta de um prédio, bloqueando-a. No meu passo acelerado apenas o vislumbrei num relance. Na verdade a consciência do que vi só se veio a formar momentos depois…
Pensei que tinha visto um simples caixote. Daqueles que os habitantes da cidade, ou um qualquer lojista com uma duvidosa noção de cidadania, abandonam pelas ruas da cidade. Como se o objeto abandonado tivesse a capacidade de ganhar pernas e sair dali pelos próprios meios, sem permanecer no mesmo lugar e assumir a condição de lixo.
Pensei que tinha visto um caixote. Um simples caixote. E ia passando sem olhar. Sem sequer me importar com o que me rodeava, absorta comigo mesma. Mas um reflexo involuntário, daqueles que nos faz olhar para o lado quando algo próximo se mexe, mostrou-me que havia muito mais ali do que um pedaço de cartão prensado. Extraordinariamente os meus olhos cruzaram-se com outro par de olhos, meio escondidos por detrás da beira da caixa. O sobressalto fez o meu passo vacilar e, andando mais devagar, olhei novamente. E agora, mais do que um par de olhos negros, curiosos mas possuidores de uma tristeza profunda, mirava-me um rosto de homem, de pele curtida pelo sol, barba negra e comprida, e cabelos desalinhados. Olhava-me com enfado. Como se eu fosse a milionésima pessoa a passar ali naquela noite e a interromper o seu descanso. Olhava-me como se eu fosse a visita que aparecera tarde e sem avisar. Queria dormir e eu era a intrusa que não o permitia.
Perturbada, desviei o olhar. Retomei o meu passo acelerado. Mas não regressei ao meu mundo interior, onde me encontrava aquando daquele encontro fortuito. Desperta, fui atenta aos vãos de escadas, soleiras de portas, cantos e recantos onde mais pessoas se abrigavam da noite e procuravam refúgio.
Pensei que tinha visto um caixote. Um simples caixote. Mas afinal era a casa onde morava um homem. Um homem que, com um simples olhar me trouxe de volta à realidade. Um simples olhar que me mostrou que, afinal, há mais caixas com homens lá dentro…



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

14º Campeonato de Escrita Criativa - Desafio #4


ELA. Pronome pessoal. Terceira pessoa do singular. Para mim a gramática é diferente e a semântica mais sombria: Esclerose Lateral Amiotrófica.

Foi a sentença do médico de semblante pesaroso. Foram as três letras que, juntas, acabaram por me confinar a esta cama da qual jamais sairei. Aos poucos o meu corpo abandona-me e torna-me numa ilha. Uma porção de eu rodeada de mim por todos os lados. Árida e deserta…

Não me resta muito tempo, mas o tempo para mim é agora medido em segundos tão eternos, que fazem com que o pouco seja demasiado.

Resta-me esperar. Recordar. Ouvir. Cheirar. Atentar às mais pequenas variações de luz. Às mais leves brisas. Aos mais suaves sons. Guardá-los para poder levá-los comigo até ao próximo apeadeiro.

E de tudo o que vejo e sinto deste meu terrível trono, há um momento particular, parte dos meus dias infinitos, que quero levar bem juntinho a mim. A janela abre-se pela mão de uma qualquer enfermeira que por aqui passa. As cortinas brancas invadem o quarto, ondulando ao sabor do vento que sopra lá fora e que eu não posso senão imaginar. Uma campainha atroa e corta o ar – está na hora do recreio na escola aqui ao lado. O meu quarto inunda-se de risos e gargalhadas das crianças que brincam felizes, alheias ao consolo que a sua felicidade me traz.

Na meia hora que dura aquele recreio esqueço o meu exílio interior. Sou transportada na brisa para o pátio da escola, onde me encontro rodeada de crianças tagarelas. Pego numa mão pequenina e entro na roda. Rio, canto e rodopio até ficar tonta. Tapo os olhos e conto devagar até que todos se escondam, para depois percorrer cantos e recantos à sua procura. Lanço uma pedra e, ao pé-coxinho, jogo à Macaca. Faço três covas na areia e jogo ao berlinde com os rapazes de joelhos esfolados e rostos manchados de terra e suor. Sento-me no baloiço e impulsiono-me com tanta força que quase dou uma volta completa em torno do seu eixo. Corro só porque sim. Porque posso e não há ninguém que me impeça.

O segundo toque da campainha faz levitar o meu incorpóreo espectro de regresso ao cativeiro. Retorno de espírito leve e alma tranquila. E feliz, porque sei que amanhã, se ainda cá estiver, serei novamente criança no embalo do riso que o vento traz até mim.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

14º Campeonato de Escrita Criativa - Desafio #3


“Chuta!”…”Passa a bola, também quero jogar!!!”…”Remata agora! Boa!”… “Golooooooooooooo”

Sob o luar, três meninos jogam à bola. Três crianças de pedra, centenárias, por quem o tédio passa, mas não a idade. Três meninos cansados da sua imobilidade pétrea. Cansados de serem os guardiões da taça superior da fonte do Rossio. Três meninos que, depois de percorrer a cidade, jogam um último jogo de futebol, antes da magia terminar.

Do alto da fonte observavam o Rossio, apesar de não se conseguirem ver uns aos outros e apenas fugazmente se tocarem. Companheiros seculares. Todos os dias observavam o vai vem dos carros e das pessoas, o deambular dos vagabundos e os percursos erráticos dos turistas, ávidos de levar consigo toda a magnificência daquela praça dentro das suas máquinas fotográficas. Comentavam entre si este ou aquele comportamento mais estranho ou um traje menos usual dos que passavam por ali. E riam com gargalhadas cristalinas de criança. Mas o riso era fugaz, porque o tédio sobrepunha-se a tudo. No fundo de todos eles, fervilhava a inconfessável inveja da liberdade de todos os que os rodeavam…

Até que uma noite, enquanto sonhavam com o que fariam se durante três dias pudessem sair dali, um deles viu uma estrela cadente e pediu um desejo. Liberdade. Por três dias. Fê-lo em voz alta e, mal se calou, o luar incidiu sobre eles e brilhou com uma intensidade invulgar. Aos poucos, começaram a mover-se. Lentamente, por entre rangidos e estalidos, começaram a mover os braços, os pescoços, as pernas... Os outros habitantes da fonte ficaram boquiabertos e sussurravam de espanto. Instantes depois, já os meninos estavam no chão, mirando-se, tocando-se e rindo, ainda sem acreditar no que acontecera. Não podiam perder tempo. Tinham apenas três dias.

Percorreram as ruas da cidade, subiram ao castelo e viram o rio pela primeira vez. Completamente transformados em meninos de carne e osso, fizeram amigos entre as crianças que foram conhecendo, falaram com comerciantes de rua e sem-abrigo, entraram em elétricos e autocarros, viram os aviões no aeroporto, descobriram jardins e lagos e deram de comer aos patos. Passeavam sem rumo pela cidade que agora viam a uma nova escala.

“Deixa a bola, temos que regressar!”, “Venham, rápido, temos que voltar a subir!”, “Vamos!!!”

As férias terminam. Todas as criaturas de pedra de volta à velha fonte. Os três meninos novamente em casa, ainda com o mundo a brilhar nos olhos…



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

14º Campeonato de Escrita Criativa - Desafio #2

Passado

«Jonas,
li num dos clássicos que me acompanham em horas melancólicas que “a carruagem do passado não nos leva longe”. E foi na esperança de viajar para longe que te escondi num lugar recôndito.
Encontrei-te novamente quando, mais que escondido no sótão, estavas soterrado por memórias longínquas, que contigo reemergiram e trouxeram de volta angústias que eu pretendia definitivamente mortas.
Percorri com as mãos o teu corpinho outrora macio e o impacto das memórias que foram chegando foi avassalador. Como se cada imperfeição no teu corpo de urso de peluche fosse uma cicatriz da minha infância que jamais sarou…
As manchas descoloridas do teu pelo são vestígio das minhas lágrimas silenciosas, quando, à noite, me escondia e esperava que os gritos furiosos do meu pai e o choro da minha mãe se calassem. Agarrava-me a ti, desejando que me levasses para um mundo de fantasia. Porém apenas sabias ser o meu confidente atento.
Lembro-me dos teus olhos brilhantes, de contas de vidro negras. Mas os botões que estão no seu lugar transportam-me àquele fim de tarde em que o meu pai, novamente ébrio, te atirou contra a parede e me bateu violentamente porque eu, feliz com qualquer insignificância de criança, cantarolava pela casa, incomodando o seu descanso de homem trabalhador.
Mas são os pontos mal costurados que seguram uma perna ao teu corpinho castanho que mais me assombram, ao evocarem aquela fatídica noite, em que o meu pai, não contente com murros e pontapés, ameaçou matar-nos. Em que a minha mãe pegou em mim e fugiu daquele homem cruel. Em que, perseguindo-nos em plena rua, ele me arrebatou dos braços dela e, com esse gesto brusco, arrancou a tua pernita do corpo que eu apertava contra mim. Em que ela foi suportando uma e outra pancada até que a Polícia chegou. Finalmente!
Jonas, aos poucos o tempo foi cobrindo estas feridas com memórias mais felizes. Mas a verdade, meu único amigo de tempos difíceis, é que não consigo conviver com as recordações que me trouxeste de volta. Pertencem ao passado e é lá que devem ficar. É por isso que te escrevo esta carta de despedida, antes de te lançar no oceano. Agradeço-te por todos os desabafos que ouviste e por toda a esperança que o teu mundo de fantasia me trouxe. Mas a tua carruagem viaja rumo a nada. E eu quero rumar para longe do que já foi...»









segunda-feira, 27 de agosto de 2012

14º Campeonato de Escrita Criativa - Desafio #1


Estou a ouvir-te...




Sentada, enquanto desligava o telefone, estranhei algo sem saber materializar o quê. Levantei a cabeça e olhei em redor, por cima da divisória do meu cubículo, mas só passados instantes fui atingida pela consciência de que, numa antítese do que era usual, reinava o mais profundo dos silêncios.


Levantei-me e saí da minha jaula de paredes brancas. E o meu espanto aumentava a cada cubículo por que passava. Não havia ninguém ali…


A multidão de pessoas que ali passavam dias monocórdicos ao telefone, simplesmente desaparecera. Apesar de serem 10.30 de uma manhã de terça-feira. Apesar de três horas antes eu ter entrado no call center e lá se encontrarem já muitos dos habituais rostos pálidos, de olhos baços e apáticos.


Prossegui, apenas para confirmar o que já havia intuído: tudo deserto!


Estática, eu pairava no limbo entre o terror e a perplexidade. Aquelas pessoas todas não podiam ter-se simplesmente evaporado!


O mundo começou a andar à roda. Cambaleei até ao meu lugar e sentei-me. Tudo aquilo parecia uma história de terror contada à volta de uma fogueira num acampamento de adolescentes! Fiquei por ali, desconcertada, até que os meus olhos recaíram sobre o computador. Sobre um fundo preto, várias frases surgiram, intermitentes:



“«Quem me dera que esta gente toda desaparecesse». Foi o que disseste ontem. Estou à escuta. Desejo concedido…”

  Cada vez percebia menos! Lembrava-me de ter proferido aquelas palavras, num desabafo depois de uma discussão com vários colegas. Mas não fora um desejo! E QUEM é que estava “à escuta”? Que coisa macabra era aquela?


O pânico apoderou-se de mim. O meu coração batia descompassadamente e deixei de conseguir respirar. Desmaiei.


Fui acordada por acordes suaves, tocados por detrás de uma intensíssima luz branca, que me cegava. Ao meu ouvido, atrás de mim, uma voz sussurrava. Falava tão baixo que tive que usar toda a minha concentração para perceber o que dizia.


Modera as tuas palavras. Os teus desejos são uma ordem!”.


Tentei ver quem falava, mas não conseguia mexer-me. Repetiu aquela frase várias vezes, até que se calou e, com ela, a música e a luz desapareceram. Tudo ficou negro novamente.


Quando acordei, o ruído dos telefones e dos meus colegas regressara. Agredia-me os sentidos perturbados, mas a familiaridade daqueles sons, naquele momento, era até reconfortante. Saí para o corredor. Estavam todos de volta! Tudo regressara ao normal.

 
Mas no computador, uma frase ainda piscava:


Continuo a ouvir-te…”

domingo, 1 de julho de 2012

Voo sonhado



Eu podia acordar de manhã e voar. Podia acordar antes do sol nascer, abeirar-me da janela da varanda, empoleirar-me e lançar-me em voo do sétimo andar, apenas para saciar a curiosidade cega que me invade sempre que uma gaivota passa e fala comigo, sem me dizer para onde vai. Quero perceber o que me diz. Quero que me diga onde vai. E se nada disser, então que me mostre os labirintos aéreos que percorre. Os esconderijos marítimos que a albergam.

Eu quero voar sobre o mar. Sentir o sol quente a tocar-me com os seus raios doirados, enquanto o brilho da água me encandeia e eu sorrio. Quero rasar as águas calmas de um dia de Verão, até poder ver o meu reflexo bem de perto. Até poder sentir o sabor do sal que as ondas fazem viajar até mim.

Eu vou voar ao anoitecer. Conhecer que recantos aconchegam o sono dos pássaros. E, se lá couber, aninhar-me junto deles e dormir também. Num sono leve de penas e silencioso de piares. Com a lua a desvelar-se em cuidados, para que o sono de todos nós, suas criaturas, seja embalado por brisas suaves e sonhos tranquilos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tic-Tac


Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Desafio #12


Liste sete coisas inesquecíveis que viveu até hoje. Depois escreva, durante sete minutos para cada uma,sobre cada uma delas.
(máximo: 400 palavras)




Prescruto inutilmente a multidão na esperança vã de te vislumbrar. Impossível. Faltam sete minutos para o teu comboio chegar. Sete eternidades.
Recosto-me no banco da estação e deixo a cabeça cair para trás. Por cima de mim, um daqueles grandes relógios que todas as estações exibem marca a contagem decrescente que sinto dentro de mim. Fecho os olhos e relembro o que de maravilhoso vivi contigo. A memória dá corda ao tempo…
Tic-tac. E sou transportada para a madrugada em que, no meio da multidão dançando, os nossos braços irrequietos se tocaram. Voaram faíscas que só nós vimos. E o magnetismo entre nós fez perdurar aquele toque.
Tic-tac. E regresso ao amanhecer em que vi o sol nascer por entre o chilreio madrugador dos pássaros e os pingos de orvalho que, da árvore sobre nós, caíam nas nossas cabeças. Envolvida pelos teus braços. Embalada pelas palavras doces que me sussurravas ao ouvido.
Tic-tac. E as imagens do meu espírito transformam-se naquele instante breve em que, num jantar com amigos, me abraçaste secretamente num fugaz momento a sós. Derreti-me nos teus braços, ao mesmo tempo que te repeli com um sorriso, quando alguém entrou na sala.
Tic-tac. E volto a mais um concerto. Mais uma noite quente de Verão, à beira mar. Mais um olhar cúmplice trocado entre dois seres que guardam o segredo de que ninguém desconfia: a paixão que cresce. Cada vez mais difícil de guardar dentro de nós, de resguardar de olhares alheios.
Tic-tac. E em redor de mim aquela rua que assistiu a tantos encontros ocultos. Regresso àquela tarde em que, no embalo de um abraço, surgiu o primeiro beijo há tanto ansiado e tão dificilmente contido. A paixão extravasou numa despedida que se prolongou e que perdura na memória.
Tic-tac. E percorro a areia molhada de mão dada contigo, enquanto, olhamos para trás e vemos as nossas pegadas lado a lado, desejando que se propaguem por um futuro de amor e partilha. Uma onda beija-nos os pés, alheia ao beijo longo que trocamos, com a lua e as gaivotas como únicas testemunhas na praia deserta.
Tic-tac. E do topo do castelo, observo a cidade que reluz numa manhã de Domingo. Mais um dos recantos que me levas a (re)descobrir. Porque ao teu lado cada lugar se transforma num mundo novo, que anseio avidamente percorrer contigo.
Tic-tac. Tic-tac. A contagem decrescente termina. Corro para ti…

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Campeão

Campeonato Nacional de Escrita Criativa


Desafio #11

Recorde o professor mais assustador que já tiveste. Depois imagine como seria um reencontro com ele. (máximo: 400 palavras)



É a prova decisiva. As conversas excitadas e os gritos do público atroam e repetem-se num eco, ampliadas no enorme espaço fechado da piscina.
Ao varrer a bancada com os olhos, reconhece a silhueta encarquilhada do velho sentado no canto mais próximo da meta. De óculos encavalitados na ponta do nariz adunco, espreita avidamente para a piscina. Mas ainda faltam mais de cinco minutos para a partida.
Passaram muitos anos desde a última vez que o viu, mas reconhece-o ao primeiro relance. O professor Martins, o seu primeiro professor de natação.
Filipe não sabia ainda nadar, na sua primeira aula de natação. Mas o professor gritava, como se os sons que expelia com veemência pudessem, miraculosamente, transformá-lo num peixe. Alinhados na beira da piscina, todos os seus colegas saltaram para a água. Mas não o aterrorizado Filipe. Até que uma mão pesada, de ossos salientes, o empurrou. A profundidade era reduzida mas, tomado pelo pânico, Filipe debatia-se horrorizado. Cada segundo parecia durar horas. O terror aumentava. Ia morrer afogado. Por sobre os gritos e gargalhadas das outras crianças, a voz de trovão do professor Martins gritou “Agarra o pau. Olha para cima e agarra o pau”. E lá estava uma vara robusta, à qual lançou a mão. Só quando se sentiu içado de regresso ao chão firme conseguiu voltar a respirar. E só depois dos pais conseguirem outro professor é que aprendeu a nadar.
Passaram 20 anos. Tudo mudou. Não só aprendeu a nadar, como é campeão europeu de natação. É para recuperar o título que vai competir dali a instantes. Mas a visão daquele homem perturba-o.
“Não sabes quem eu sou” – pensa – “mas daqui a pouco eu próprio to direi. E nessa altura vou ter uma medalha ao pescoço e vou mostrar-te que a tua monstruosidade é inútil. Não precisei de ti para chegar onde cheguei!”.
Chega a hora. Respira bem fundo e olha fixamente a água, tentando concentrar-se. Toma posição e, quando soa o sinal de partida, torna-se uno com a água e todos os pensamentos esvaecem. O seu corpo move-se sozinho, em braçadas poderosas.
*
Vitória.
*
Logo que pode, sai do pódio em passos largos. Dirige-se ao canto acima do qual Martins permanece, na bancada. Olha-o nos olhos e ergue a medalha acima da cabeça, exibindo-a com uma expressão de desafio no rosto.
O velho, desconcertado, olha-o pasmado. Quem é aquele homem?

Lua Libertadora

Campeonato Nacional de Escrita Criativa


Desafio #10

Escreva sobre uma das mais fáceis decisões que tiveste de tomar na tua vida.
(máximo: 400 palavras)


Abro os olhos neste espaço em que os dias e as noites são apenas miragens que se confundem entre si. Os primeiros sons matutinos começam a ouvir-se. Os outros doentes que, entre gemidos e queixumes, recebem os primeiros cuidados. As auxiliares que fazem a higiene dos acamados. Enfermeiras e médicos que conversam no corredor.
O meu corpo fraqueja, mas esforço-me por me lavar sozinha. Em frente ao lavatório olho o espelho e mal reconheço o rosto enrugado e o cabelo branco que ele mostra. Até que rapidamente as minhas pernas se começam a debater com a verticalidade e me deixo tombar sobre a cadeira de rodas.
Regresso à cama. Vai começar mais um dia eterno. Mais um dia em que tento esquecer as dores que me percorrem as entranhas e me apontam a eminência do fim. Esperar pela morte é o meu entretém diário. Anseio-a mais do que a receio. Libertação…
Há, no entanto, algo que me faz suportar esta vida torturada de ser que de todos depende. A minha família. Antes de partir, quero saber que todos vão ficar bem. Aí sim posso perder a batalha e ganhar a guerra. Morrer finalmente.

***
Alterno entre o sono e a vigília neste corpo que abandonou o ritmo do sol e da lua. Novamente, o sono regressa. Chega em novelos de consolo. A turvescência dos meus olhos escurece e os meus músculos abandonam a rigidez.
***

E sou novamente uma garota livre que acorda na sua cama, rodeada pelos irmãos que dormem sossegados à sua volta. A menina que era há oitenta anos atrás.
Levanto-me ligeira e, silenciosamente, vou até à janela e abro-a. Uma aragem fria faz os meus cabelos esvoaçar. A lua olha-me e ilumina-me. Convida-me a sair. Alicia-me. “Sai para o mundo e descobre-o nas cores da noite!”
Muitas vezes me fez este apelo insensato. E eu, sensatamente, de todas as vezes recusei. Se aceder não há retorno. E a minha família? Mas estou cansada. As dores são cada vez maiores. Não cessam.
Olho novamente a lua pela janela e a dúvida desvanece-se. Hoje sou a menina de dez anos a sonhar com uma mente de noventa. Sento-me no parapeito, rodo as pernas para fora e um pequeno salto põe os meus pés em contacto com a terra áspera. Finalmente vou ver o que a noite me mostra e o sol me esconde.
Não vou mais acordar…

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Protesto anti-crise

Campeonato Nacional de Escrita Criativa

9ª Jornada

O que é que cozinharia para um inimigo?
(máximo: 400 palavras)


“A cereja no topo do bolo”.
Foi esta expressão, proferida por uma amiga numa qualquer conversa trivial, que deu a Isabel a ideia mais louca da sua vida.
Isabel sempre fora uma mulher pacata, que se contentava com o que a vida lhe dava. Morava com o marido e a filha num pequeno apartamento e sempre se considerara uma mulher feliz. Jamais alguém a ouvira proferir reclamações, queixumes ou críticas à sua sorte ou à vida que levava.
Porém, uma série de acontecimentos nos meses anteriores fez com que Isabel deixasse de conseguir ignorar a metade vazia do copo, que na realidade estava em franca expansão. E não conseguindo ignorá-la, sentia-se na obrigação de tentar remediá-la. Até ao momento sem sucesso. A tranquilidade de sempre desaparecera. A última gota de água transbordara o copo, e não havia como aceitar os últimos eventos sem protestar. E a expressão da sua amiga dera-lhe uma ideia genial.
Começou por preparar um bolo. Um normalíssimo pão-de-ló, delicioso graças à secular receita das suas antepassadas. Sentou culpa ao pensar que o bolo era um desperdício. Talvez os resultados obtidos compensassem os meios…
Depois de cobrir o bolo com uma camada de creme de chocolate, passou à segunda parte da cobertura. A parte central do protesto. Ao seu lado tinha uma enorme quantidade de cerejas cristalizadas. Iria colocar sobre o bolo uma cereja por cada um dos revezes que sofrera no último ano, e que atribuía em grande parte à “crise”. A “crise”, que de tanto ser alardeada, falada, temida, parecia ter-se materializado num pequeno humanóide que cada português trazia às costas, vergando-lhe os ombros.
“Uma cereja por ter perdido parte do meu ordenado. Uma cereja por ter ficado sem o abono de família da minha filha. Uma cereja por o meu marido ter ficado sem emprego. Uma cereja por o meu marido não conseguir encontrar novo trabalho. Uma cereja pelo aumento do preço da electricidade. Uma cereja pelo aumento dos preços dos alimentos…”
E assim continuou, anotando o significado de cada cereja. Quando terminou, a cobertura de chocolate já não se avistava. Apelidou a sua obra de “Bolo do Descontentamento”.
Estava a terminar. Avisara as estações de televisão do que planeava fazer, e elas estariam presentes quando entregasse aquele presente cheio de significado. Faltava apenas um pormenor. A carta que explicaria ao destinatário o significado do seu gesto e de cada cereja.
“Excelentíssimo Senhor Primeiro-Ministro”…

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Paraíso Imaginado

Campeonato Nacional de Escrita Criativa
Desafio #8

Como seria o sítio ideal para viver?
(máximo: 400 palavras)

Chamam-lhe demência. Alzheimer. Eu chamo-lhe paraíso. Libertação.

Depois de 65 anos de privações, trabalho árduo e perdas, encontrei dentro de mim o refúgio almejado. Viajo no tempo e no espaço. Acompanho-me de pessoas que conheci e de fascinantes personagens que nunca antes atravessaram a minha vida. A realidade? Construo-a ao sabor das emoções.

Há mais de dois anos que o tempo que passo no mundo real tem vindo a diminuir. Cada vez tenho mais dificuldade em distinguir a realidade dentro de mim daquela que me impuseram ao internarem-me nesta casa de repouso. Cada vez é mais complicado reconhecer as caras das pessoas outrora familiares, porque no meu espírito bailam outros rostos, que viajam comigo pelos lugares de sonho que percorro levemente, como se pudesse voar.

Quando ocasionalmente salto para fora de mim e me encontro com os meus, reconheço desespero e angústia. Sofro com eles porque não quero ser a fonte da sua dor. Mas a verdade é que não há motivo para pesar. Sou muito mais feliz assim. O oblívio é libertador. O devaneio é celestial. Não compreendem. Vêem apenas um velho inerte sentado numa poltrona.

Aqui à beira mar, vejo as gaivotas que esvoaçam livres e têm comigo animadas conversas estridentes. Sinto a frescura da espuma branca que beija os meus pés descalços, com um marulhar que convida a ficar. Estendo a mão para o lado, que encaixa na mão bem quentinha da minha já não falecida mulher, a Joana. As saudades perderam o sentido. Caminha a meu lado como se nunca tivesse partido. E os seus lábios rosados exibem aquele sorriso de garota que me apaixonaram há tantos anos atrás.

Deambulamos pela areia, até que ao nosso redor já não há praia nem mar. Com um brilhozinho de magia, o mundo em torno de nós dá lugar a uma fresca floresta de altas árvores que sussurram ao sabor do vento. Esquilos irrequietos fogem velozes, assustados com as nossas gargalhadas coloridas. Colho uma perfumada rosa vermelha
e estendo-a à Joana, apenas para poder deleitar-me novamente com o seu sorriso. Sentamo-nos num prado solarengo, por entre flores silvestres que o transformam numa pintura de Monet. Abraçamo-nos e ali ficamos, à espera que mais uma vez a realidade de faz de conta se metamorfoseie e nos transporte para um qualquer sonho inimaginável onde possamos reinventar a felicidade e o amor.

Encontrei o paraíso dentro de mim. Sou feliz.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Águas profundas

Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Desafio #6

Liste dez coisas que faria se estivesse impedido de estar ou falar com alguém durante duas semanas. Depois escolha uma e explore-a.
(máximo: 400 palavras)

"Meu amor,
não sei se é dia ou noite, ou quanto tempo passou. Pelo relógio, passaram 12 horas, mas a esta profundidade não é fiável. Já deste pela minha falta. Deves estar aflito…
Tudo aconteceu num ápice. Num momento estou deitada, quase a adormecer. Noutro, vejo o rosto do teu amigo Zé bem perto do meu. Salto da cama, mas ele agarra-me com força e um pano tapa-me a boca e o nariz, sufocando-me. Enquanto perco os sentidos, ouço-o sussurrar. «Não tenhas medo, não te vou fazer mal».
Acordei num filme de ficção científica. Há pouco o Zé explicou-me tudo. Estou aprisionada numa cidade subaquática. A muitos quilómetros de profundidade, longe da luz do sol, milhares de seres apenas meio humanos habitam uma cidade envolvida por uma colossal bolha que mantém o oxigénio no interior. O Zé – o seu verdadeiro nome é impronunciável – é filho do soberano da cidade. Este pretende abdicar do cargo em favor do herdeiro, mas apenas quando este encontrar uma noiva.
Pois, é aqui que eu entro! Ele quer que eu seja a sua noiva. Pelo menos pelas duas semanas que o pai demorará a passar-lhe o trono. Estou presa num jogo de faz de conta. Mesmo que fuja, não chegarei viva à superfície.
Espero. Fiz uma lista do que posso fazer enquanto aqui estou: (1) Visitar a cidade; (2) Conversar com os habitantes; (3) Ler alguns dos livros que há aqui no quarto e conhecer esta cultura; (4) Desenhar um pouco de tudo o que aqui vir; (5) Reunir coisas que possa levar para casa, provando que isto não é um delírio; (6) Escrever um “diário de bordo” desta viagem de maravilhas; (7) Investigar a barreira que isola a cidade – a curiosidade científica não me abandona…; (8) Perceber ligação desta cidade com o nosso mundo; (9) Tentar convencer o Zé a libertar-me – este é o verdadeiro número 1 da lista! ; (10) Escrever-te cartas e contar as minhas aventuras.
Estas cartas são inúteis, não tas posso mandar. Mas fazem-me sentir mais perto de ti. Enganam saudade. Enquanto escrevo, imagino que estás a trabalhar e que a qualquer instante entrarás por aquela porta, abraçar-me-ás e contar-me-ás o teu dia, como numa noite normal. Nestas cartas sou eu que te conto o meu dia, enquanto te imagino à distância de um afago. Meras ilusões. A tábua de salvação da minha sanidade…
Em breve estaremos juntos.
Amo-te.
Carolina."


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Memórias de uma centenária

Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Desafio #5


Recorde o professor mais assustador que já tiveste. Depois imagine como seria um reencontro com ele.
(máximo: 400 palavras)

Neste meu imponente espaço de escola primária quase centenária, já assisti a quase tudo. Vidas que começam e acabam. Encontros e desencontros.
E é a um reencontro que presencio neste momento. É a noite das famílias. Os professores organizam actividades regulares, para que os pais partilhem com os filhos e os docentes este meu espaço que um dia já foi deles também.
A actividade de hoje nasceu do reconhecido talento do professor Vítor, regressado após 22 anos. Apaixonado pelas danças latinas, Vítor organizou uma aula de salsa com pais e filhos.
O auditório está cheio. Na sala, uma mulher, Maria, acompanhada pelo marido e pelo filho, olha fixamente o palco. No seu rosto reconhecimento, dúvida, curiosidade e… qualquer outra emoção que não consigo bem captar…
Abrindo caminho pelo meio da multidão, Vítor escolhe mulheres do público ao acaso. Com movimentos sensuais, pega-lhes na mão e instiga-as a dançar aos quentes ritmos latinos. Chegou a vez de Maria. Esta reconhece-o, mas ainda não percebeu de onde. À medida que a aproximação de Vítor a torna na sua inequívoca escolha, Maria olha para o marido com um ar constrangido. «Lá terá que ser…». A sensação de que conhece aquele homem não cede mas não a impede de se abandonar ao ritmo fluido e voluptuoso da salsa.
As luzes e o ruído abafam o mundo em redor. Apenas Maria e Vítor existem. E é aqui, que Maria o reconhece. É o professor Vítor. O pavor dos seus anos de menina. O homem de régua sempre pronta que, com alcunhas e comentários sarcásticos, humilhava os alunos de óculos, de aparelhos nos dentes, gordos, … . Recorda-o com medo vívido.
E é medo o que ainda sente, enquanto dança nos braços do sensual homem de meia idade. Está demasiadamente aturdida para reagir. O corpo move-se sozinho nas mãos experientes de Vítor, mas o seu rosto tem a expressão de quem encontrou Hannibal Lecter num beco deserto.
A dança termina e, trémula e cambaleante, Maria desce as escadas do palco. O marido elogia-a, mas nem o ouve. Titubeando, pergunta ao filho: «Aquele homem é teu professor?». «Não mãe, ele é o professor dos meninos do 1º ano. ». «Ah! Ele voltou…».
O seu coração continua descompassado. Na sua mente o eco de uma música bem antiga.
“Hey, teachers, leave them kids alone”
***
Mais uma história bizarra para o meu longo livro de memórias…

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Brincar aos Deuses


Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Desafio #4


Escreva sobre um coração que era impossível fazer parar.
(máximo: 400 palavras)



O momento da verdade chegara. Exultava na divisão penumbrenta e húmida a que chamava laboratório.
Chamavam-lhe médico, alquimista, bruxo... dependia do que fizesse e dos resultados que obtivesse. Muitas vezes salvara vidas, usando os conhecimentos de medicina. Muitas vezes ceifara vidas, sem dó nem piedade, a bem daquilo a que chamava a verdade suprema. O conhecimento da vida e da morte. Encarava essas mortes com frieza. Como perdas necessárias. E por isso muitos o viam como um bruxo maléfico.
Justificava as suas acções com a grandiosidade do seu propósito: alcançar a chave da imortalidade. E essa grandiosidade rendia-lhe mais do que ódio e receio. Muitos eram os que tinham fé no seu trabalho. Muitos sonhavam poder vencer as limitações da morte. E esta fé levava-os a ajudarem-no. Forneciam-lhe cobaias humanas, vivas. Prisioneiros, condenados à morte, pobres desesperados iludidos pela promessa de dinheiro. Todos até agora com o mesmo destino. O fracasso. A morte.
Até que chegara o ponto de viragem. Finalmente segurava na sua mão um coração quente, que batia como se nada de diferente tivesse feito até aí.
O corpo da mulher que jazia debaixo das suas mãos, numa marquesa fria de metal, perecera haviam três dias. Tivera o cuidado de o ligar às máquinas que garantiam que o sangue continuava a circular, que o cérebro recebia os fluidos vitais e que todos os órgãos eram preservados. Queria testar o novo método que desenvolvera para retornar o coração humano à sua actividade. Uma combinação de drogas e electroestimulação de certas terminações nervosas, que fora já eficaz em pequenos mamíferos. Mas o verdadeiro teste tinha que ser feito com um coração humano. As particularidades da nossa fisiologia fazia com que muitas vezes o que resultava noutros animais fracassasse em homens e mulheres. Esta era a terceira tentativa. E à terceira é de vez, como diz o povo.
Injectara no corpo sem vida as drogas necessárias. Abrira o peito da mulher e colocara eléctrodos em locais precisamente definidos. Carregara nos botões da máquina de electroestimulação…
Milagre. O órgão inerte ganhou movimento. Um movimento inicialmente tímido, que foi ganhando vigor a cada batida, como se uma confiança renovada nascesse nesta sua inesperada mobilidade. As suas cores rapidamente se tornaram rubras, vivas, à medida que o sangue o banhava novamente. Agora era impossível pará-lo.
Colocou a mão sobre o órgão reanimado. Deslumbramento. Êxtase. Sentia-se Deus.
A imortalidade estava agora ao seu alcance.





terça-feira, 9 de agosto de 2011

A canção do bandido

Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Desafio #3

Escrever um texto que seja exactamente o oposto do famoso ditado "Quem te avisa teu amigo é!". (máximo: 400 palavras)



Luís segurava as cartas na mão transpirada. Mal conseguia esconder o nervosismo. “All In”? “Fold”? Sentia-se numa encruzilhada em que, penduradas de um poste, duas placas indicavam direcções opostas: uma delas dizia “VIDA”. A outra, o oposto. E era mesmo a sua vida que dependia daquela decisão.
Luís entrara no jogo num acto de desespero. Dedicava-se a todo o tipo de negociatas, mais ou menos lícitas, e os mais recentes desaires tinham-no levado a contrair uma dívida exorbitante. E os cobradores eram implacáveis. O dinheiro ou a morte. Foi então que recorreu a Mico, um espanhol com quem já fizera negócios no passado. Apesar do seu ar astuto e discurso bajulador, este homem, com uma rede de contactos mais longa que a grande Muralha da China, ajudara Luís diversas vezes, proporcionando-lhe recursos e apresentando-lhe pessoas essenciais para lucros inesperadamente elevados. De certa forma, incluía-o já na sua lista de amizades, e por isso lhe ligou. E mais uma vez, Mico tinha a solução mágica. O espanhol frequentava mesas de poker clandestinas. Luís mal sabia jogar, mas um esquema brilhante foi urdido pelo companheiro. Conhecia a sala, sabia que havia um espelho através do qual poderiam comunicar, se a disposição dos jogadores fosse favorável. Certificar-se-ia de que tal aconteceria. Mico localizar-se-ia onde pudesse ver o jogo dos restantes elementos. O espelho serviria para lhe passar a informação. A segurança na sala era escassa, não seriam desmascarados. A vitória era certa.
Luís aceitou e até àquele momento perdera apenas um jogo. Já se podia considerar um homem abastado. Mas o valor das apostas era agora astronómico e podia deitar tudo a perder. Segurava quatro valetes. “Four of a kind”. Sabia que era uma boa mão, mas estava longe de ser a melhor. Vislumbrava confiança no rosto dos outros jogadores, todavia não conseguia perceber se faziam bluff. Levantou os olhos e viu Mico pelo espelho. Os seus gestos expressivos e sorriso rasgado não deixavam margem para dúvidas. Vais ganhar. Aposta.
“All In”.
No final do jogo, todos revelaram as suas cartas. Um “Straight Flush” surgiu na mesa. Madalena, a mulher sentada ao seu lado recebeu a avultada quantia de dinheiro da mesa. Luís estava arruinado.
O que Luís nunca chegou a saber foi que aquele sempre fora o desfecho previsto. Madalena era amante de Mico. O seu “amigo” estava milionário.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Instinto

Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Desafio #2

Um erro informático faz com que cerca de 400 pessoas ficam presas num pequeno departamento de uma empresa. Só há uma pequena máquina de snack e bebida.
(máximo: 400 palavras)


Ao fim de 50 dias, jazo no chão do átrio do escritório. As últimas réstias de energia não me permitem mais do que olhar em redor e observar as expressões e ténues movimentos dos meus companheiros de infortúnio. Quase se pode tocar a tensão que paira no ar. Todos observam. Todos se observam. Apenas aguardando o movimento em falso que servirá de desculpa para libertar a torrente de desespero e agressividade acumulados ao longo de todo este tempo.
Dezenas de pessoas amalgamadas num espaço exíguo, iluminado apenas pelas luzes da única fonte de alimento que nos tem mantido. Salvação e perdição, sob uma aura de neóns.


Insidiosa, sedutora, obscena. A serpente que incita a dar o passo em falso que trará o fim.
Há 50 dias que as portas de segurança se encerraram e perdemos o contacto com o exterior. Há 50 dias que 400 almas por aqui vagueiam, na esperança de um resgate. Há 50 dias apenas alimentados por uma pequena máquina de snacks e bebidas.

No início do cativeiro acidental, quando uma calma racionalidade ainda subsistia, criou-se uma comissão liderada por um ex-militar, que estabeleceu critérios para racionar os alimentos da máquina. Primeiro os mais doentes, os mais fracos. Só depois os restantes. Mas éramos 400. Rapidamente os mais fortes viraram os mais fracos e os mais resistentes os mais subnutridos. E a revolta começou. Os genes egoístas sobrepuseram-se. O instinto de sobrevivência passou a ser a voz que gritava acima de qualquer lógica. E as suas primeiras vítimas foram o nosso fortuito líder e a sua comissão. A chacina foi inevitável. O primeiro dos muitos assassinatos que se seguiram. À medida que a comida escasseava, qualquer tilintar de moeda ou movimento na direcção da máquina era interpretado como uma tentativa dissimulada de obter comida. E qualquer desconfiança deste género equivale aqui a uma sentença de morte. Os cadáveres amontoam-se.

Olho em redor. Nos olhares que me rodeiam, o desespero, a angústia, a esperança que se desvanece. A agressividade que começa a esvair-se com a energia que soçobra. Já ninguém se atreve a mirar o último chocolate que persiste na máquina. Sombras necrófagas começam a nascer no olhar de quem contempla a porta por detrás da qual os cadáveres foram depositados.

O silêncio para lá do nosso acidental sarcófago quebra-se. Uma batida, duas, três!!!! Salvação? Dizem que a fome extrema causa alucinações…

domingo, 24 de julho de 2011

Tragédia Iminente




Campeonato Nacional de Escrita Criativa

Desafio #1


Pense num produto sem o qual não poderia viver. Agora imagine que a marca anunciou que o vai tirar, em breve, do mercado. Escreva para a empresa a tentar demovê-los dessa decisão. (máximo: 400 palavras)



Exmos. Srs.,


O meu nome é João e soube que iriam deixar de produzir rebuçados peitorais Dr. Bayard. Nestes tempos de crise, as notícias de empresas a fechar ou descontinuar a produção de algum produto são já rotineiras. Mas não consigo encarar de ânimo leve a notícia de que vão deixar de existir estes rebuçados no mercado. Assim, venho por este meio escrever-vos para vos oferecer auxílio para evitar tal tragédia. SALVEM OS DR. BAYARD!


Por esta altura, é natural que estranhem tanta angústia por uns simples rebuçados. Compreendo tal reacção, mas os vossos não são meros rebuçados. São uma parte da minha vida, sem a qual não consigo viver. São o meu combustível. Preciso deles tanto como da água para beber ou do ar para respirar. Não se passa um dia em que eu não coma pelo menos metade de um pacote. Há quem consuma álcool, café, tabaco. Para mim nada disto me dá prazer ou me faz sentir bem. Mas os Dr. Bayard sim. De manhã não acordo verdadeiramente até ter colocado dois ou três rebuçados na boca. Em momentos de maior nervosismo, como uns atrás dos outros e só assim consigo continuar a trabalhar sem que a ansiedade tome conta de mim. Tenho mesmo que admitir que dificilmente consigo ter uma relação mais íntima com uma mulher sem os vossos rebuçados. Parece que só aquele sabor doce, com um leve travo a anis me faz funcionar. O meu corpo não reage a nada sem o seu combustível embrulhado em papel plastificado branco. Os vossos rebuçados são parte do sangue que me corre nas veias.


Como tal, pretendo evitar este trágico desaparecimento. Visto que estes rebuçados subsistem desde 1949, indubitavelmente a vossa empresa já resistiu a várias crises, pelo que acredito poder evitar a extinção definitiva. Tenho capital que pretendo disponibilizar-vos e conheço várias pessoas influentes que consomem quase tantos Dr. Bayard quanto eu. Ajudar-vos-ia se formássemos o “Clube dos Amigos dos Dr. Bayard”? Por favor aceitem esta ajuda e não acabem com a melhor parte da minha vida.


Agradecendo antecipadamente um contacto vosso, subscrevo-me com os melhores cumprimentos.


João Silveira

P.s.: Caso a extinção seja inevitável, pretendo adquirir o vosso stock restante. Posso armazenar até uma tonelada de pacotes. Embora insuficiente para as minhas necessidades a longo prazo, tal quantidade ajudar-me-ia já a não ter que viver sem Dr. Bayard nos próximos anos.

domingo, 19 de junho de 2011

Last job

Sinto-me bíblico esta noite. O Alfa e o Ómega. O princípio e o fim. Ou será melhor dizer o princípio do fim?

Tudo começou numa noite fresca de primavera. Ali, à luz de uma lua que iluminava pensamentos, sob a incandescência dos candeeiros da autoestrada, os meus magníficos mecanismos deram um suspiro de supremo cansaço. Parei. A minha proprietária (a que de agora em diante chamarei dona apenas para encurtar a fraseologia), meio atarantada e com movimentos desordenados e chamadas telefónicas constantes, lá chamou o reboque para me tirarem dali.

E foi enquanto me içavam para cima do reboque, que as palavras da minha dona, proferidas ao som de um jazz melancólico de Diana Krall, selaram o seu - e o meu - destino: "Já chega, vou-me livrar de ti! Mas como vou arranjar dinheiro? Só se assaltar um banco...". Pensava eu que apenas haviam metáforas nestas palavras!...

Depois de uma desconfortável estadia numa oficina húmida e escura, e de um arranjo astronómico, regressei à minha rotina de viagens e estacionamentos, como se nada se tivesse passado. Mas algo diferente pairava no ar. A minha dona cada vez menos preocupada com as lombas e buracos na estrada, por cima dos quais passava como se conduzisse um carro que não lhe pertencesse. A sua condução mais agressiva. O seu ar ausente e alheado enquanto conduzia. Agora vejo tudo isto como indicadores que faziam prever o que se seguia. Mas como poderia eu imaginar?

Nunca antes acontecera, mas tornaram-se habituais passeios nocturnos pelos subúrbios da cidade onde vivia. Percorríamos, por vezes durante horas, ruas escuras e desertas a velocidade irregular. Tanto acelerávamos como passávamos bem devagar, ao sabor dos apetites da minha dona. Eu não percebia o que se passava, mas olhando agora para trás, tudo aparece com clareza: as ruas que percorríamos lentamente tinham sempre algo em comum - agências bancárias. Sim! Percorrendo as ruas bem devagar, olhando para um lado e para o outro, a minha dona estudava os arredores, a segurança, os prédios vizinhos, as ruas e os percursos circundantes. Vejo-o agora, porque na altura nada percebi. Confesso que aquela mudança de hábitos e tão estranhas rotinas apenas me fizeram na altura suspeitar que a minha dona tinha perdido o juízo. Mas nada me fazia prever o que se seguiria.

Estes passeios, primeiro noctívagos e depois diurnos também, prolongaram-se por semanas. Ao longo do tempo, a variedade de ruas percorridas foi reduzindo. Até que numa semana a rua percorrida era sempre a mesma. Uma rua residencial larga, numa urbanização de prédios novos em que a maioria dos apartamentos exibia cartazes gigantes "Para Venda". O único estabelecimento aberto, adivinhem...: Um banco. O enorme letreiro cor de rosa iluminava a rua de noite. Durante o dia era a única coisa que se destacava por entre os prédios de fachadas todas iguais. De dia ou de noite, poucas pessoas passavam por ali, e menos ainda eram aquelas que entravam no banco ou que utilizavam a Caixa Automática que ficava ao lado da porta do banco. O posto de polícia mais próximo ficava a 20 km dali, pecebi eu depois de tantas viagens nas últimas semanas. E a menos de 5 km dali havia uma entrada para a autoestrada. Durante dois ou três dias a minha dona estacionou-me a quatro ou cinco quarteirões de distância do banco e percorreu cada centímetro daquelas ruas a pé, com um bloco na mão, fazendo anotações. Nesta altura eu percebi que algo estava para acontecer. Tornava-se demasiado óbvio.

Até que esta noite, era uma da manhã, a minha dona sentou-se ao volante e começámos a percorrer o já familiar trajecto. Mas tudo estava diferente. As suas roupas geralmente coloridas deram lugar a uma roupa preta bem justa. Um capuz negro cobria-lhe a cabeça e a face. As mãos estavam trémulas e transpiradas. Ao seu lado, um grande saco de desporto repousava no banco e uma bolsa mais pequena estava pendurada na cabeceira do banco, esta bem pesada e de onde era possível entrever alguns objectos metálicos que não consegui identificar.

Parámos cerca de um quilómetro antes de chegar perto da agência, mas desta vez a minha dona deixou-me a trabalhar. Com a bolsa pequena a tira-colo e o saco grande na mão, saiu a correr deixando aberta a porta do lugar do condutor. De onde estava, não consegui ver o que se passava. Mas não demoraram 10 minutos até que alarmes estridentes soassem pelo ar e que, instantes depois, a minha dona voltasse a entrar esbaforida pelo carro e acelerasse como nunca antes em direcção à autoestrada.

Tínhamos já percorrido mais de 30 Km, quando as luzes azuis ameaçadoras começaram a reflectir-se no retrovisor. Sirenes estridentes cortavam o silêncio da noite. E a minha dona, num estado de agitação incontrolável, acelerava cada vez mais...

Com uma guinada brusca, dirigimo-nos para a saída da autoestrada. Talvez a minha dona pensasse que seria mais fácil despistar a polícia dentro de uma localidade. Mas, ingénua, não contava com todas as cancelas das portagens fechadas, certamente por obra da polícia que nos seguia. Nem sequer hesitou. Com o acelerador a fundo, passou por uma delas a toda a velocidade, quebrando-a e, com isso, estilhaçando o meu vidro da frente e amolgando a chapa da frente. Não parei, contudo. Continuei a andar a alta velocidade, mais rapidamente que nunca. E foi esta velocidade que fez com que acabasse aqui onde estou agora.

Mais à frente da portagem, havia uma curva bem apertada. Não sei se a minha dona não contou com ela (já tínhamos passado por ali antes...), ou se não conseguiu travar a tempo. Apenas sei que quando dei por mim estava a galgar o separador metálico e a voar em direcção do nada, rodopiando sobre mim mesmo, com barulhos de lata a amachucar-se, vidros a partir-se e gritos da minha dona apavorada. Até que parámos, e o silêncio por intantes se impôs.

Os carros da polícia pararam tão perto, que as suas luzes azuis me encandeavam. A minha dona, em trôpegos solavancos, conseguiu sair do carro, e cambaleando tentou correr levando o grande saco consigo. Mas não demorou nem um minuto até que uma meia dúzia de polícias a derrubassem, algemassem e lhe tirassem o saco de onde, depois de aberto, uma quantidade enorme de notas esvoaçaram.

Eu? Bem, eu sei que não vou voltar a percorrer estradas. Aqui, iluminado por flashes azuis, aguardo a última viagem de reboque que me conduzirá à sucata. Mas não sem uma sensação de ter sido um instrumento do destino. Os astros alinharam-se, selaram o destino da minha dona e fui eu quem a trouxe até aqui. Ela pensava que eu era seu, mas afinal foi o contrário.

Minha dona? AH! Ninguém manda em mim!!!!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Invisível


Hoje o Destino resolveu meter o seu narizinho abelhudo na minha vida. Chamo-lhe Destino, como lhe podia ter chamado, Deus, Diabo, Fado, Azar, Alá,... sei lá!... As designações são tantas e as evidências nenhumas... Escolhi esta. Apeteceu-me.

Quando eu estava a um passo minúsculo de finalmente chegar ao céu, quando já quase conseguia voar, veio o Destino e prega-me uma daquelas piadas de mau gosto, que prega apenas porque a sua própria vidinha é um marasmo e precisa de se entreter.


E pronto, estava já eu prestes a voar quando um bater de asas mais hesitante e menos afortunado me levou direitinha ao chão. Mesmo depois de cair, continuei a dar às asas, mas a dor foi difícil de ignorar (é impressão minha ou esta metáfora está a tornar-se um bocado idiota?).


Vou ao hospital, tenho que recuperar rapidamente. Afinal de contas o céu não vai esperar para sempre que eu lá chegue!!! E aí, fico boquiaberta com o que descubro: tornei-me invisível.


Dado o conteúdo deste blog, isto nada teria de extraordinário. Mas a verdade é que, pela primeira vez, estou mesmo a falar na primeira pessoa, em discurso directo, desta dimensão que todos partilhamos e com os pés bem assentes no chão. Não foi um fenómeno paranormal. Não foi um milagre. Não foi um sonho nem um delírio. Passo a explicar.


Entro no gabinete médico que me aguardava de porta escancarada. Lá dentro, de costas para a porta uma mulher de bata branca, com um daqueles cabelos bem esticados com uma oleosidade que denuncia a necessidade urgente de um regresso ao cabeleireiro, falava ao telefone em voz alta. Bato à porta levemente. Não sou notada. Pigarreio. Nada. Peço licença para entrar num tom de voz que penso que já denunciava alguma impaciência. Nada outra vez, pensei eu. Mas com a rapidez de reacção de um caracol em dia de Verão, a senhora - a médica, claro está! - vira-se para mim e faz-me sinal para que entre, sem nunca interromper a conversa que está a ter.


Entro devagar (o meu estado não me permite outra coisa) e sento-me. Olho a médica que nem sequer me dirige um olhar. Fala num tom de voz enérgico com quem quer que seja, sobre uma terceira pessoa que desconheço. Alterna o olhar entre a janela e a sua mala, na qual remexe de vez em quando, distraída. E fala, fala, fala. Como seu eu nem estivesse ali. Como se eu nem existisse.


Foi aqui que comecei a achar que o meu principal mal não está na locomoção reduzida induzida pela queda, mas sim um etsranho caso de invisibilidade. Será que a mulher simplesmente não me vê???


O telefonema termina finalmente e, acto contínuo, a médica desvia o olhar para o monitor de computador que divide o espaço entre nós, sem nunca me fitar. Mexe no rato com movimentos que denunciam alguma inépcia, enquanto - finalmente! -me pergunta o porquê de eu estar ali.


Sou breve, a minha história não é complexa nem longa. E durante o meu sintético relato, apenas recebo um breve olhar de relance da médica, que anda às voltas meio perdida no mundo da informática. De repente, miséria das misérias "AH!!! Mas isto já deixou de funcionar outra vez!!!", geme a mulher numa verdadeira aflição. "Não sei o que fizeram a estas coisas, mas isto já nunca funciona!". E pronto, mais uma desculpa para que a médica passasse mais dez minutos a degladiar-se com o desafortunado pedaço de tecnologia, desapercebendo-se novamente da minha presença.


Ouve-se conversa no corredor. "OH colega! Pode ajudar-me aqui com o computador? Veja lá se me consegue pôr isto a funcionar". A donzela em apuros clama pelo cavaleiro para a salvar. Mas quem entra pelo gabinete dentro não é o garboso cavaleiro dos contos de fadas, mas um médico já de idade avançada, muito magro e com maneirismos que em cada instante denunciam uma homossexualidade não confessada mas conhecida por todos.


"Deixe lá ver isso!", diz o homem debruçando-se sobre a secretária e pegando no rato. "Vai ver que isto resolve.". "Oh!" - responde a médica, agora genuinamente aflita - "mas está a desligar-se!". "Calma, senhora, tenha calma!". E assim começa um diálogo que se estendeu por minutos que a mim me pareceram longos. Os dois médicos falavam entre si, ou falavam com o computador, ou chegavam mesmo a falar sozinhos. Comigo é que nada. Eu simplesmente não estava ali.


Talvez por defeito de profissão, acabei por me recostar na cadeira, e simplesmente deleitar-me a apreciar a cena. Havia, claro, aquele desassossego na minha mente que me questionava "Serei invisível?", "Será que não me vão ligar nenhuma?". Mas acabei por calar estas vozes e apenas apreciar a cena que era no mínimo caricata!


Num momento de tomada de consciência, lá o médico - ainda sem olhar para mim - diz qualquer coisa do género "Aqui a senhora está a olhar para nós, deve achar que não lhe ligamos nenhuma!". Mordo a língua para não proferir nenhum dos comentários azedos que me passaram pelo espírito em resposta a este comentário. Sobretudo agora que parecia que finalmente ia ser vista por uma daquelas criaturas!


Não me enganei. Poucos minutos depois saí do hospital com uma receita e um curativo. Mas saí também com uma outra certeza: uma pessoa pode ser invisível, mesmo que não seja em histórias e contos de fantasia.



domingo, 8 de maio de 2011

Luz e escuridão

Passeio pela rua clara, de fachadas brancas que refulgem ao sol do meio-dia. Não há recantos, não há sombras. Não há curvas nem ângulos. Apenas o branco e o céu. Em torno de mim viandantes de várias partes do mundo deambulam ostentando expressões alegres de quem caminha alheio às misérias do mundo. É assim que deve ser na zona turística de uma capital, numa amena manhã de Maio. Há, claro, quem esteja a trabalhar e tente tirar partido da onda benemérita de turistas de bolsas com cordões lassos. Mas apesar de para esses ser apenas mais um dia de trabalho, também eles têm estampadas nos rostos expressões de contentamento e alegria, como se a ausência de nuvens no azul acima das suas cabeças tivesse a mesma metafórica existência dentro das suas almas. Apenas sol, dentro e fora de si. Apenas pureza branca ao seu redor e no âmago de si.



De súbito, de qualquer recanto que desconheço porque inexistente por aquelas partes, surges tu, negro e sombrio. Detecto-te pelo canto do olho, sobressaltada, sem perceber de onde saíste. Por uma fracção de segundo, receio que tão inusitada aparição possa ser de algum modo ameaçadora. Um assalto talvez. Mas sem perceber bem porquê, o primeiro relance sobre o teu rosto revela a impossibilidade deste receio. Ninguém com uns olhos tão cristalinos poderia ter sequer um fiapo de intenções malévolas. Mas uma sobrancelha arqueada empresta-te um toque de malícia ou rebeldia, que de imediato me conquista, como se me desafiasse: “Não me vais seguir, pois não?”. O teu olhar carregado de segundas intenções serpenteia em redor do meu corpo, mas não dizes uma só palavra. Viras costas. E eu sigo-te.



Calcorreias a calçada como se ela fosse apenas um prolongamento de ti. Mais do que pertencer-te, o espaço que ocupas em cada passo parece ser absorvido pelo teu corpo e de repente tu és tudo em redor de nós. Dominas o espaço. E o tempo é apenas uma insignificância ao sabor dos teus caprichos.



Subimos e descemos as ruas estreitas da parte velha da cidade. Ruas minúsculas onde o sol não consegue lançar nem uma cintilância dourada. Como se de repente a noite tivesse caído sobre nós. Como se alvas ruas de antes não tivessem sido mais do que o afago de um sonho.



Páras sem te virar quando, depois de uma subida íngreme que me faz ofegar, chegamos ao pináculo da cidade, o castelo. Páro também, sem quebrar a fronteira invisível que me obriga a permanecer a uma dúzia de metros de ti.



Aproximas-te do muro que te separa do abismo e eu, num magnetismo involuntário que não compreendo nem controlo, avanço exactamente o mesmo número de passos que tu. E mais uma vez ali fico, contemplando a tua silhueta enquanto, imóvel, vislumbras um infinito que transcende a orbe do meu entendimento.



Viras-te para mim, lentamente. Olhas-me directamente nos olhos, como se me quisesses hipnotizar. Como se eu não estivesse já hipnotizada desde o primeiro momento em que olhei para ti. Numa luta contra a imobilidade que me estacou a uns metros de ti, consigo que as minhas pernas se movam. Um passo, depois outro. Passos lentos e árduos. Alcanço-te. Virada para o rio que refulge, o meu braço quase toca no teu. E neste vácuo entre nós, no silêncio, quase consigo ouvir o crepitar da energia que nos atrai. Que me aproxima de ti.



Continuas de costas voltadas para o rio. Apenas te alcanço com a periferia da visão. Sei-te bem perto. E no entanto sinto-te bem longe, como se existisses simultaneamente em duas dimensões diferentes, em dois mundos paralelos e eu apenas pudesse alcançar com limitações uma fracção desta existência desmultiplicada.



Assobias. Sons agudos deslizam dos teus lábios subitamente contraídos. Silvos melodiosos enchem o espaço entre nós e penetram em mim, fazendo-me vibrar. Imagens sibilantes começam a tomar forma na minha consciência. Estrelas, planetas e galáxias rodopiam à minha volta a uma velocidade estonteante. Até que a cena vai desacelerando, gradualmente, até parar perto de um pequeno satélite azul que orbita um colossal planeta. Num instante vejo-me rodeada de água por todos os lados. Estou no meio do mar e respiro como se a água fosse o meu elemento. Abaixo de mim uma miríade de pontos luminosos revela uma cidade subaquática no meio da imensidão negra. Compassadamente mexo braços e pernas e rapidamente a alcanço. E sem perceber como, dou por mim ao teu lado novamente. Mas desta vez és diferente. O teu corpo está envolvido por uma película prateada, cobrindo a pele morena que te conheci ainda há pouco. Os teus cabelos longos ondeiam como se voassem. Lanças-me um sorriso cândido e envolves-me num longo abraço, acetinado na nova pele que agora te descubro. Aproximas os lábios do meu ouvido e sussurras. “Fica.



E, antes de poder responder, numa fracção de segundos retorno ao ponto de partida. Estou de volta à muralha do castelo, e o rio está de novo ao pé de mim. O silêncio denuncia a tua ausência. Não existe mais o teu assobio. Não és mais ali.
Mas eu queria ficar…